02/05/17

E a França aqui tão perto…



Reflexões, onde se fala da tragédia do PSF, da miopia de quem subavalia Le Pen, do que falta a Macron… e de como a França nos deve interessar a todos.

1. No espaço político do Partido Socialista Francês (PSF), apresentaram-se às presidenciais dois candidatos: um ficou em primeiro lugar (Macron), o outro em quinto (Hamon). Este era o candidato oficial, aquele era de facto um candidato da grande constelação a que pertence Hollande. Os vastos sectores do PSF que decidiram ignorar o processo oficial de escolha do candidato presidencial (as primárias) escolheram o caminho de uma provável implosão do partido. Mas essa não será sua culpa exclusiva, dado que é já longo o processo de “balcanização” do PSF. Por seu lado, o candidato oficial não quis, ou não foi capaz, ou não o deixaram, juntar as peças de um partido há muito tempo demasiado partido, tendo optado por tentar ocupar o espaço de outros candidatos de esquerda – com muito magros resultados.

2. Os dois candidatos presidenciais que resultaram de escolhas em primárias ficaram pelo caminho. A direita republicana, apanhada pelos escândalos do seu candidato, não encontrou maneira de definir e legitimar um candidato alternativo que não ficasse refém da circunstância dificilmente explicável de substituir uma escolha “popular” (as primárias) por uma escolha “de cúpula” (na direcção do partido). Os socialistas não foram capazes de levar para as primárias todas as escolhas possíveis no seu campo político, por opção de Macron e por deserção do perdedor Valls. Isto mostra que, sem deixar de reconhecer mérito ao instrumento “primárias”, esse mérito depende de muitos aspectos que estão bem para lá do simplismo do “plebiscito” a um rosto. As forças políticas precisam de mais democracia, mas esse acréscimo de democracia não virá de método plebiscitário focado em personalidades e em opções “preto ou branco”; esse acréscimo de democracia terá de vir de maior valorização dos colectivos, do debate com consequências, do aprofundamento da participação, do alargamento da decisão.

3. A “pasokização” dos partidos socialistas não acontece só quando estes se inclinam à direita. Muitos outros factores podem pesar na perda de influência dos socialistas, mesmo quando estes se inclinam para a esquerda, como os casos do PSF, do PSOE e do Labour nos devem fazer pensar (embora sejam casos muito diferentes entre si).

4. Em França, as presidenciais são importantes, mas muito se decidirá nas legislativas. Aí se verá se se consuma ou não a implosão do PSF, aí se verá o desdobramento da proposta política de Macron (transformará o En Marche num partido? e que partido será esse?), aí se verá se a esquerda consegue algum tipo de diálogo de que já foi capaz no passado e que será importante para sobreviver ao sistema maioritário a duas voltas, aí se verá se alguém em França é capaz de fazer um equilíbrio produtivo entre os compromissos europeus e as necessidades de uma política progressista a nível nacional, aí se verá se as esquerdas estão mais inclinadas para tentar alguma forma de convergência ou mais propensas às pequenas vinganças que tantas em vezes as desgraçam.
A diferença de atitude entre o Partido Comunista Francês (PCF), que não hesitou em apelar ao voto em Macron para derrotar Le Pen na segunda volta, e Mélenchon, que duvidou e levou muitos dos seus apoiantes a duvidar se é mesmo preciso votar Macron, é bem um sinal das dificuldades que vive a esquerda. Mesmo que Le Pen perca (e isso nunca está garantido sem os votos da esquerda), não será o mesmo se ela perder por muitos (por exemplo, por 70%/30%) ou se acabar a eleição com a esperança, sua e dos seus, de que será para a próxima (como se acontecerá se perder, por exemplo, por 55%/45%). Pormenor que muitos não apanharam a seu tempo, hoje ganha novo significado o percurso acidentado do apoio do PCF a Mélenchon: os dirigentes decidiram não o apoiar, mas uma espécie de referendo interno decidiu pelo apoio. Fenómenos de “popularidade” à esquerda que merecem reflexão.

5. Macron faz escolhas e tem propostas que, do ponto de vista de um socialista, não nos podem deixar descansados. Desde logo, e no plano simbólico, a sua recusa da diferença entre direita e esquerda é bem a marca de todos os perigos: é o caminho habitual da raposa no galinheiro da esquerda, nunca o contrário. E a sua visão do mercado do trabalho também não é de nos deixar descansados, porque recauchutar as ilusões de “flexibilidade” não promete nada de bom. Mas, evidentemente, estas são divergências que nada têm a ver com o outro lado da barreira: Le Pen é a pugna por fechar as fronteiras, negar asilo aos refugiados, tratar os imigrantes como criminosos, muscular a luta antiterrorismo numa lógica que a confunde com uma “guerra de civilizações”, cultivar a cultura do seguidismo ao chefe. Quem confunde estas duas propostas, e vacila em definir a necessidade de votar Macron contra Le Pen, está mal se pretende estar do lado da esquerda.
O sectarismo, evidenciado por exemplo por Mélenchon, não merece contemplações. Vamos lá a ver: Macron é criticado por querer respeitar os compromissos europeus – mas não é disso que muitos acusavam (e acusam) o PS em Portugal? E isso justificaria deixar de votar num candidato do PS (mesmo que dos mais europeístas) contra um candidato fascista? Nunca! O documento dos “Economistas Aterrados” de análise e crítica ao programa de Macron é um documento que faz lembrar as críticas da esquerda da esquerda portuguesa ao último programa eleitoral do PS – e isso justificaria uma hesitação entre votar contra um candidato fascista ou ficar por um “meio voto” do tipo abstenção ou voto branco ou nulo, como querem muitos dos apoiantes de Mélenchon? Nunca! Essa hesitação terá de ser paga politicamente – mas esperemos que não tenhamos de ser todos a expiar colectivamente tal erro monumental.

6. Importa identificar a principal e a mais decisiva questão que está em jogo em França – e por toda a Europa. Essa questão é a da globalização – e a questão da União Europeia enquanto a nossa possível cartada na globalização. A principal fraqueza de Macron é ser o candidato dos ganhadores da globalização. Eu não estou contra os ganhadores da globalização – mas estou contra as forças políticas que ignoram os perdedores da globalização. Ora, Macron fala como se estivesse nesse caso. É impossível ao socialismo democrático e à social-democracia sobreviver na Europa se não tomar para si a realidade dos perdedores da globalização, encontrando caminhos para que passem a fazer parte dos ganhadores da globalização. E isso implica trabalhar para que a União Europeia seja uma ferramenta política de regulação da globalização. Sou dos que acreditam que, face à globalização, não pode nenhum país querer ficar mais isolado do que já estamos. Seria suicida. Precisamos é de estar em “regiões”, em grupos de países que se apoiam mutuamente para fazer da “navegação global” uma oportunidade. No nosso caso, é a UE que pode jogar esse papel – mas, para que isso seja perceptível, a UE precisa de outro rumo e outra determinação, caso contrário funcionará como factor de agravamento da globalização face aos seus elos mais frágeis cá dentro. Essa é a questão central do debate em França, por aí passam as escolhas mais difíceis. Nesse ponto, as propostas de Macron têm muito caminho para andar. Propostas como a de um Ministro das Finanças do Euro ou de um Orçamento próprio da Zona Euro, há muito que fazem parte do arsenal francês na frente europeia e não são novidade. Mas só fariam sentido, e só poderiam ter algum efeito positivo no grande debate entre nacionalismo e europeísmo, se fossem enquadradas numa visão política para a Europa que fosse capaz de enfrentar a fractura entre perdedores e ganhadores da globalização e fosse capaz de equacionar a UE nessa encruzilhada – algo que Macron, até ao momento, não quis, ou não soube, fazer.

7. Em todo o caso, estes são debates que só fazem sentido se Macron ganhar e ganhar bem. Se Le Pen ganhar, ou ficar lá próximo, estaremos mais perto de questões mais básicas de sobrevivência da democracia. Algo que, inexplicavelmente, parece que nem todos à esquerda são capazes de compreender.

2 de Maio de 2017

2 comentários:

Jaime Santos disse...

Espero apenas que aqueles que vão ficar em casa durante o dia de Domingo, ou votar branco ou nulo e se situam no espaço da Esquerda não venham protestar para a rua à noite se Le Pen ganhar, antes fiquem em casa e pintem a cara de preto. Não se chora na rua o que não se soube defender nas urnas... E sobretudo espero que os moralistas cá do burgo que passam o tempo a arrostar contra a globalização, não produzam aquelas análises deprimentes em que acabam sempre a culpar o Centro Esquerda pela derrota, só porque não vê a luz e passa a pensar como eles. Todos os 'ni-ni' fazem-me lembrar os comunistas de Weimar que tratavam os social-democratas de 'social-fascistas', com as consequências que se conhecem. Há um oceano de diferença entre o fascismo e o Centro Esquerda ou mesmo a Direita Democrática (incluindo a neoliberal), que também tem direito de cidade como Soares lembrou em 1975. Nesse sentido, pelo menos o PCF não alinha no discurso niilista dos insubmissos.

manuelpereirabarros Meira disse...

A orfandade vinda do desaparecimento de Miterrand não se nota! O seu exemplo de combate aos Panzers tedescos e de resistência aos T1 soviéticos indicaram o caminho a gerações de socialistas e os frutos estão à vista. Que a França socialista continue a nutrir-se de tão heróicas práticas!