24/04/17

Macron vs. Le Pen



Os meus apontamentos ontem à noite (FB), depois de conhecidas as primeiras estimativas de resultado da primeira volta das presidenciais francesas:

«França: sempre estou para ver se alguma força de esquerda se escusa a apelar ao voto contra a extrema-direita.»

«França: há apenas uns meses todos julgavam que o vencedor sairia da extrema-direita ou da direita republicana. O que entretanto aconteceu deve ser julgado à luz desse cenário.»

«Desvalorizar o perigo Le Pen? Dizer que é mais ou menos o mesmo que Macron?! Estou um bocadinho cansado de malta de esquerda que adora lixar os outros a partir do seu sofá e do seu síndrome de comentador.»

«A França e nós. Hoje é dia de lembrar a inteligência política de Álvaro Cunhal nas presidenciais de 1986. E, já agora, de lembrar que muitos não aprenderam nada com isso.»

«Para que conste, não sou admirador de Macron. Por variadas razões, especialmente, porque desconfio de programas "modernizadores" que "não são nem de direita nem de esquerda". (De qualquer modo, cabe dizer que há muitos anos não voto por entusiasmo excessivo por este ou aquele: em geral voto com base no cálculo das consequências.) Contudo, é indubitável que Macron tem capacidade de mobilização por valores cívicos positivos (o que é bom, mesmo que isso não produza automaticamente um bom programa). De qualquer modo, mesmo que o homem seja neoliberal (e tem propostas que permitem suspeitar que assim seja), isso está a milhas de ser um espécime de fascista. Isto teria, sem dúvida, peso no meu voto se fosse eleitor francês.»

«Mélenchon está a falar e faz uma amálgama entre Le Pen e Macron. E não dá indicação de voto. De momento.»

«O PSF também pasokou (para já indirectamente, numas eleições não legislativas). Mas tenham calma: a crise da social-democracia europeia não atinge só os partidos que piscaram o olho à direita. Sanchez e Corbyn não estão nesse caso e não são exemplos de grande saúde política para os seus partidos (e isto não é, sequer, uma avaliação do seu valor próprio, mas do que conseguiram). Isto para dizer que não vale a pena tentar respostas simples para uma situação tão complexa.»


«Regressou a esquerda que não distingue entre o fascismo e o capitalismo democrático? Isso obriga-me lembrar os fundamentos: para mim, ser de esquerda não é separável de ser democrata. Mais: primeiro vem a democracia, é mais importante ser democrata do que ser de esquerda. E, sim, pode ser-se democrata sem ser de esquerda. Quem, em nome de qualquer ideia de esquerda, concede que o fascismo não é assim tão mau que mereça uma condenação inequívoca, não me merece consideração nenhuma. Dizer que Le Pen e Macron "venha o diabo e escolha", faz-me lembrar o pior.»

«José Manuel Fernandes também fala de Macron como um banqueiro. Que coincidência...»

«Outro derrotado das presidenciais francesas: as primárias. Nenhum dos candidatos saído de primárias passou à segunda volta. (Só para fazer pensar os que gostam de soluções simples e universais em política.)»

«Talvez agora se perceba a razão de ter havido dúvidas entre os comunistas quanto a renovar o apoio a Mélenchon.»

«O Partido Comunista Francês apela a barrar Le Pen na segunda volta, usando o boletim de voto. Algo que Mélenchon não foi capaz de fazer.»

«Capa do jornal dos comunistas franceses esta noite. [Imagem lá acima.] Há quem saiba quando não podemos hesitar.»

24 de Abril de 2017

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Quem, em nome de uma qualquer ideia de Esquerda, vem dizer que a Direita (Macron é de Direita, só que tem vergonha de o assumir, contrariamente a Fillon) é igual à Extrema-Direita não é de Esquerda, porque, como bem diz, não é Democrata. O PCF sabe, honra lhe seja feita, quem é o adversário principal. Já Mélenchon revelou-se incapaz de qualquer grandeza, pelo menos a julgar pelas suas declarações citadas no Le Monde. Em 2002, quando era ainda de Esquerda, ele não fazia tais confusões: https://twitter.com/DamienMariller/status/856406038815354880...