05/11/12

Os Desastres do Amor.





Falamos todos com as mesmas palavras. Mas é com as palavras comuns que encontramos a nossa própria voz, a nossa forma de dizer, um pensamento próprio. Ninguém pretenderá que digo o mesmo que tu por usar “eu”, “tu”, flexões várias de “dizer”, sendo essas palavras do mesmo saco.
Luís Miguel Cintra anda há tempos a dizer o que tem para dizer com textos afinal seus que são feitos com pedaços de textos de outros que antes dele escreveram. Misturou comédias de Aristófanes em “A Cidade”, fez um “Auto da Alma” que era mais do que isso em “Miserere”, no “Fingido e Verdadeiro” enxertou Santo Agostinho e Tertuliano na peça original de Lope de Veja. E outros casos há, que de momento não me vêm à pena. Se, em vez de pegar nos textos ordenados dos clássicos, os remistura, Cintra não diz o que já estava para ser dito, mesmo se a re(a)presentação diz sempre qualquer coisa de novo. Escolhe a sua própria voz com as vozes dos outros e nisso expõe-se como autor, não já apenas como encenador (ou actor).
Desta vez, neste “Os Desastres do Amor”, Cintra usa textos de Marivaux (1688-1763), sem que isso seja fazer a Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux a violência de falar de amor, porque também Marivaux falava de amor. Mas os tempos não perdoam: Cintra vem falar de amor em tempos de crise. Vem falar de amor em vez de falar expressamente desta crise. É um espectáculo onde, se desligarmos os neurónios certos, podemos até esquecer a crise, fazer de conta que tudo aquilo é um conto de fadas (com uma fada a fazer o papel de deus, com deuses incertos quanto ao fado). Podemos sair do Teatro do Bairro Alto bem-dispostos com a companhia Cornucópia. Até soltos: afinal, falar de amor entre o vale da depressão e o vale da revolta poderia ser uma paisagem verdejante, um intervalo. Será? Não, não é.
N’Os Desastres do Amor somos confrontados com as virtudes, os valores, os velhos e os novos, o velho a fazer de novo, a facilidade de trocar o velho pelo novo e pensar isso com ligeireza, a possibilidade sempre presente de vender e comprar tudo em mercados vários – e o sentido ou a falta de sentido de assim proceder. Neste espectáculo, o risco eminente da superficialidade, da facilidade, da volatilidade, é o espectáculo mais profundo de todas as crises que nos assolam nesta crise (os escrúpulos andam mesmo em maus lençóis).
Costumamos ir à Cornucópia para ver espectáculos maximizados para a metafísica e podemos convencer-nos que, desta vez, temos uma festa de possibilidades em torno do tema doce do amor. Só que, bem vistas as coisas, sair dali a pensar que Cintra cumpre a sua palavra de nos falar de outra coisa que não seja a crise, será a crise da própria compreensão. Tudo aquilo que nos é dado a ver é a paisagem da crise antes da crise, sob a crise, fundamento da crise, a crise da nossa ligação ao mundo. A crise da autenticidade, que levará sempre à crise da cidade. Não ver isso debaixo das peripécias do amor será a sua própria pedra contribuída para o muro dos tempos árduos que são os de hoje. Coerentemente, a Cornucópia não lhe retirará a liberdade de ir ver Os Desastres do Amor e voltar confortado. Alegrado, mesmo. Mas não foi esse o teatro que ali vi. Porque não é esse o teatro que ali vou ver.
(Estreou a 1 de Novembro, nesse dia o vimos. Estará na Cornucópia até 25 de Novembro. Mais informações aqui.)






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