11/01/17

O direito à liberdade.



Entre o melhor que tiveram as despedidas públicas a Mário Soares estão os excertos de discursos que foram escolhidos para serem emitidos em vários momentos, que pudemos ouvir pela voz do próprio.

Já alguns notaram como foi impressionante estar no Largo do Rato a ver passar o fundador e, de repente, ouvir (no meu caso, atrás de nós) a voz de Mário Soares a gritar “Viva o Socialismo! Viva a Liberdade!”. Foi, simplesmente, esmagador. Surpreendente, a mostrar o vigor do Soares vivo que nos liderou. Foi mais um momento da impecável e digníssima participação do PS nestes dias de despedida, sob a batuta discreta mas poderosa da Ana Catarina Mendes, Secretária-Geral Adjunta do Partido.

Claro que o excerto do discurso na assinatura do Tratado de Adesão à CEE é de grande significado e peso histórico, mas é, provavelmente, das escolhas mais previsíveis, por se impor tão claramente àquele momento no claustro dos Jerónimos.

Não está nesta categoria, mas "Os dois sonetos de amor da Hora Triste", de Álvaro Feijó, ditos por Maria de Jesus Barroso, ecoando nos Jerónimos para Mário Soares, criaram um momento sublime e de inultrapassável comoção.

O último momento público, já no cemitério, deu-nos a ouvir aquela passagem de um discurso de campanha onde Mário Soares explica que a tolerância é um valor maior pela razão de que ninguém tem toda a verdade, ninguém tem a verdade em exclusivo. Essa ideia, tão simples, é o fundamento das escolhas essenciais que temos de fazer em democracia. Não é por condescendência que temos de dar voz aos que pensam diferente de nós. É porque, sem os outros, sem as outras visões, sem as ideais que não coincidem com as nossas, nenhum de nós teria mais do que uma visão parcial da realidade. Nenhum de nós teria tantas possibilidades só com a sua visão como as possibilidades que todos temos se contarmos também com as visões que nos contradizem. A democracia não é uma benesse aos demais. A democracia é uma necessidade para termos mais possibilidades no mundo.

Esta última ideia não a perceberam aqueles que tentaram fechar Mário Soares em caixas limitadas. Aqueles que tentarem reduzir Mário Soares a um ou outro momento do seu percurso político, esses não perceberam nada do que Soares significa. Eu tive variadas discordâncias com Mário Soares neste ou naquele momento da vida pública portuguesa desde a Revolução. Mas nunca perdi de vista que o direito à liberdade é o primeiro direito do cidadão numa comunidade política, sem o qual nenhum outro direito de cidadania pode ser possível. Tentar "cortar Soares às fatias" para separar o "Soares bom" do "Soares mau" segundo as conveniências do momento, é precisamente esquecer que Mário Soares foi essencialmente um homem livre. Depois de Mário Soares, ainda há quem não entenda isto. É bem certo que a sua obra precisa ser continuada.



11 de Janeiro de 2017








07/01/17

Obrigado, camarada Mário Soares !

16:36


O que devemos aprender com Mário Soares, hoje?

Deixando de lado as palavras de circunstância, vamos ao essencial. O que qualquer político democrata deve aprender com Mário Soares é não se limitar a "gerir os dias" e, pelo contrário, dar a cara e erguer a voz pelas causas que, sendo necessárias, o "senso comum acomodado" prefere silenciar ou adiar. É essa coragem cívica que temos de aprender com Mário Soares, hoje, quando tudo nos impele à mediania.

7 de Janeiro de 2017

30/12/16

Vale dos caídos, Tóquio.

12:27


Sob o título "Japão: em Yasukuni, a II Guerra Mundial ainda está por terminar", o Público noticia hoje o seguinte: "Um dia depois de Shinzo Abe ter feito uma visita histórica a Pearl Harbor, a ministra da Defesa japonesa visitou o controverso santuário Yasukuni, onde é feito o culto a criminosos de guerra." É, de facto, uma questão quente na política japonesa e regional.

A 15 de Junho de 2013, durante a minha estadia de cinco meses na Universidade de Tóquio, visitei o templo em questão. O texto que então publiquei neste blogue explica o que por lá está em causa. Reproduzo esse texto abaixo, sem tirar nem acrescentar. (Este texto consta agora do meu livro Caderno de Tóquio. Para saber mais sobre esse livro pode clicar aqui.)




Hoje fiz uma visita muito querida à direita nacionalista e imperialista do Japão. A um sítio que essas correntes gostariam que fosse visitado por políticos de topo, para quebrar o tabu que ainda é paras as forças mais tradicionais da política japonesa do pós-guerra. Fui visitar o Yasukuni Jinja. Localizado no bairro de Iidabashi, considerado um dos santuários xintoístas mais bonitos e imponentes de Tóquio, o Yasukuni Jinja (“Santuário para a Paz da Nação”) é dedicado aos nacionais caídos em combate nas guerras travadas pelo Japão moderno, incluindo (mas não exclusivamente) os mais de dois milhões de japoneses que morreram na Segunda Guerra Mundial (entre eles, vários dirigentes militares condenados como grandes criminosos de guerra). No recinto, compondo a mensagem, encontra-se o Museu da Guerra Yushukan. Mas vamos por partes.

Muitos aspectos deste santuário xintoísta são como em qualquer outro. A entrada na zona santa é assinalada por portais (torii), sendo que este, enorme e em aço, ao ser visto de dentro mostra bem a divisão com o espaço profano.


Há a actividade de pedir um desejo e, não gostando do que calhou, deixar o respectivo papelinho pendurado à espera que os deuses façam melhor, criando o que chamo “árvores de desejos que não correspondem às expectativas”.


Também há votos inscritos em tabuinhas que se penduram numa estrutura própria.



E também há o espaço para o ritual da purificação.


Há, contudo, requintes neste santuário que não se encontram em todos, como este palco específico para o teatro Noh, ao ar livre, como manda a tradição.


Podemos, contudo, encontrar indícios de que este santuário não é como qualquer outro - num sentido muito específico. Por exemplo, estava a acontecer, na parte reservada do santuário, uma cerimónia que julgo seria um casamento. Um casamento envolvendo gente da marinha de guerra, parece que não propriamente grumetes. Mas este seria apenas um indicador social.



Mais reveladora é a mensagem implícita de uma folhinha disponível no santuário. Parece que todos os meses há uma “última mensagem” a recordar. A última mensagem é uma carta de um militar japonês morto em combate, dirigida, por exemplo, como neste caso, à sua mulher. A “última mensagem” deste mês começa com uma introdução, que faz votos para que muitos venham venerar e conhecer os nobres pensamentos dos que deram a vida pelo seu país. A mensagem propriamente dita é do tenente da marinha de guerra Tokuji Onodera Mikoto, dirigida à sua mulher Etsuko, e começa com as seguintes palavras: “A minha alegria por morrer como escudo de Sua Majestade, como filho do Japão”. O resto não é muito mais original: o desejo longamente acarinhado de um homem, que é morrer pela sua nação, vai acontecer, vou alegremente doar a minha vida; a mulher tem que se comportar à altura da condição de esposa de um militar, criar o filho varão para que ele se torne também militar, criar a filha menina e arranjar-lhe um bom marido; se o filho de que está grávida também for varão, será também militar, se for menina, casará também; a esposa, após a morte do marido, deve voltar para a sua terra natal e tratar dos sogros (o tenente devia ser o filho primogénito, aquele a quem cabe cuidar dos pais, razão pela qual hoje em dias muitas mulheres os evitam como maridos); a esposa deve cuidar a sua conduta para não ser criticada; e “após a morte do meu corpo, o meu espírito tornar-se-á um guardião do nosso país e destruirá os inimigos do Imperador”; trata da educação dos nossos filhos, eu vigiarei por vós no outro mundo. Note-se que não se trata de uma despedida de última hora: a mensagem foi escrita a 29 de Novembro de 1940 e o tenente foi morto em combate a 13 de Junho de 1945. Trata-se de toda uma teoria perfeitamente assumida e sem os agravos da última aflição. (Reproduzo a folhinha em japonês, mas na outra face vem explicado em inglês.)


A outra componente do conjunto é o museu da guerra. Em parte é dedicado à memória dos combatentes (milhares de fotografias, por exemplo), mas é, substancialmente, um bom museu para passar uma mensagem. Cada secção tem painéis explicativos (interpretativos) e despojos de guerra em grande quantidade e que parecem cuidadosamente seleccionados. Os sectores com despojos estão, em geral, apenas explicados em japonês, mas os painéis têm versões em inglês. Daí resulta, sem estar aqui a fazer uma análise pormenorizada, uma adesão permanente a uma certa ideia de Japão imperial. Desde a queda do Shogunato e a restauração Meiji (quando o Imperador voltou a ter poder político, quando até aí, embora existisse, não tinha nada a ver com a governação) que a perspectiva é sempre a defesa do Imperador. O tom anti-ocidental é relativamente contido, mas sistemático. E uma certa ideia de “japoneidade” é permanente: foram sempre os adversários de guerra do Japão que tiveram culpa de tudo, desde os vizinhos chineses aos russos e aos ocidentais, sendo que o Japão agiu sempre de boa-fé e nunca fez disparate nenhum (a não ser ter perdido a última guerra). Muito significativo do que está em causa neste conjunto cerimonial. Na secção das relíquias, temos aviões que acabaram por ser usados pelos suicidas (kamikaze), embora não fosse esse o seu destino original; temos uma espécie de semi-planadores que foram concebidos mesmo para suicídio contra os navios americanos; e temos um submarino concebido para ser a versão em água dos kamikaze (atirar-se contra embarcações), pouco conhecido por ter chegado tarde na guerra e ter acabado por ter pouco uso.


Percebe-se agora por que comecei por falar em “Vale dos Caídos”? A estátua de Omura Masujiro (1824-1896), fundador do exército japonês moderno, colocada em grande destaque logo à entrada do santuário, diz tudo do que está em causa.



19/12/16

esclarecimento do Teatro da Cornucópia



Os responsáveis pelo Teatro da Cornucópia, Luis Miguel Cintra e Cristina Reis, divulgaram há pouco um esclarecimento sobre o que se tem estado a passar em torno da companhia. Constatando o nível de especulação que o assunto tem suscitado, com alguns a colocar na boca de Cintra palavras que ele não proferiu - e intenções cuja atribuição é puramente difamatória -, senti dever colocar aqui o texto desse esclarecimento. É como segue.

***

Perante a lamentável confusão gerada nos órgãos de comunicação social pela inesperada visita do Senhor Presidente da República ao Teatro da Cornucópia, vemo-nos forçados a esclarecer a presente situação.
Ao longo dos muitos anos de dependência financeira do Estado, reivindicada como indispensável, várias vezes afirmámos, em pedidos de subsídio e relatórios, que as verbas concedidas eram insuficientes para o projecto de, ao nosso modo, fazer teatro.
Quando essas mesmas verbas atribuídas para financiamento das estruturas sofreram sucessivos cortes e tendo elas há três anos chegado a um valor visivelmente insuficiente, vimo-nos obrigados a rever escolhas de programação e respectivas formas de produção, de modo a sempre viabilizar os nossos projectos. As co-produções, bem como alguns apoios pontuais como os da CML e dos Amigos da Cornucópia, contribuíram para a sustentabilidade do funcionamento do Teatro da Cornucópia.
Antes do cumprimento do último ano do quadriénio a que estávamos vinculados, considerámos já a possibilidade de o não praticar, por considerar que era já difícil o seu pleno cumprimento. Mas insistimos em continuar. A evidência, porém, da situação limite das nossas possibilidades de assegurar, neste quadro de financiamento, o cumprimento de novos projectos, e tal como dissemos na divulgação do espectáculo apresentado neste último sábado, considerámos como incontornável o fecho da empresa Teatro da Cornucópia.
Tinha já sido esta a decisão, anteriormente, comunicada informalmente ao Secretário de Estado da Cultura e que mais tarde foi a razão da reunião havida no fim de Outubro no Palácio da Ajuda, com a presença de uma representante da CML. Foi então por nós levantada a questão que se prende com a CASA, edifício excepcional que ocupamos e onde sempre trabalhámos. Com tudo que ele contém. Exprimindo um desejo de que pudesse ser aproveitado para fins culturais, não deixando que esse património viesse a constituir somente um valor capaz de colmatar indemnizações aos trabalhadores, a única dívida que a empresa que se extingue não tem porventura capacidade de resolver. Entendemos que de momento a intenção do Ministério é a de assegurar um ano de renda no sentido de se proceder a um inventário rigoroso do património.
Na véspera do passado Sábado, (Recital Apollinaire e lançamento do segundo Livro do Teatro da Cornucópia/Espectáculos 2002-2016 e de um DVD), foi-nos comunicada a visita do Senhor Presidente da República, que, antes do espectáculo, queria inteirar-se da situação.
Desse momento surgiu um tema que se prende com a questão de um estatuto de excepção para o Teatro da Cornucópia, capaz talvez, de viabilizar a sua continuidade. Surgiu o equívoco de que poderíamos mudar de opinião. O que levou o Senhor Ministro da Cultura, também presente, a admitir que o tivéssemos feito. E parece não se ter restabelecido a única versão correcta que existe, porque infelizmente a dúvida já não se põe: o Teatro da Cornucópia acaba no princípio do ano, na realidade já acabou. Com a mudança do Governo, a situação não se alterou. Disse o Senhor Ministro que o assunto estava a ser acompanhado, estudado. Haverá por isso um próximo encontro com os representantes do Ministério da Cultura.
Não se tratará, portanto, agora de um estatuto de excepção, porque somos provavelmente excepção. A empresa dissolve-se nos próximos dias, dependendo apenas de procedimentos legais que terá de cumprir.
Às pessoas que elegemos para nos governarem e que se dispõem a ouvir-nos, não nos passa pela cabeça mentir. Para com eles, para com todos, mantivemos sempre as mais leais relações. Assim foi, assim será.
Pelo Teatro da Cornucópia,
Luis Miguel Cintra e Cristina Reis


19 de Dezembro de 2016

18/12/16

a Cornucópia e o bem público





Não descobri o teatro na véspera da comoção. Não descobri o Teatro da Cornucópia na semana passada.
Não fui ao velório de ontem, desde logo porque os compromissos com amigos me merecem tanto respeito como as instituições. Mas fiquei descansado em não poder ir quando antecipei que a ocasião iria ser mais um palco para algo que Eduardo Paz Ferreira descreveu, noutro contexto, como alguém “extravasar os seus poderes constitucionais”.
Sou um admirador declarado de Luis Miguel Cintra, sem nunca ter regateado críticas, críticas estéticas ao seu trabalho ou críticas cidadãs ao seu posicionamento. Não preciso, portanto, de me armar em guardião da fortaleza (ninguém me credenciou para isso), tal como não preciso de me armar em consciência crítica de coisa nenhuma.
Já subi ao palco da Cornucópia, graças à generosidade da companhia, como amador (amante) de teatro. Não subi ontem ao palco da Cornucópia como predador, em exercício de doentia insistência na política como espectáculo.
É, pois, neste quadro que sinto dever dizer o que segue.
A Cornucópia é património nacional, não pode ser deitada fora. A Cornucópia é uma instituição, não pode ser descartada.
Mas, por muito que admiremos e amemos Luis Miguel Cintra (como é o meu caso), a Cornucópia não é Luis Miguel Cintra. Não haveria esta Cornucópia sem Luis Miguel Cintra? Não. Tal como não haveria esta Cornucópia sem Cristina Reis. E fiquemos por aqui de nomes. A instituição que tem de ser preservada, para lá de quem a fez ser o que é, é a companhia de teatro. É o que o Luis Miguel e a Cristina e os outros ensinaram aos mais novos. É o rasto que criaram e que se não pode deixar apagar. Todos um dia deixamos de fazer aquilo que andamos uma vida a fazer. Se a nossa obra morre de súbito, connosco, em algo falhamos. Há valores novos no universo da Cornucópia, como o próprio Luis Miguel tem dito publicamente. Então, é preciso garantir, não que o Luis Miguel viva eternamente, mas que os mais novos que lá andaram a aprender possam continuar, renovar, aprofundar o que a Cornucópia é. Só assim se pode tirar a prova dos nove de que a Cornucópia se tornou uma instituição. Neste caso, a prova dos nove será a prova dos novos.
Luis Miguel Cintra tem sido muito claro e muito honesto nas declarações que tem feito, ao explicar que, depois das provas que deu e nas condições em que está, não tem mais ânimo para se desgastar em burocracias. Compreendo. Não pode ser obrigado a isso. Aliás, ver um organismo oficial reagir citando os números dos apoios à companhia teatral, num salivar muito típico da burocracia quando pretende linchar algo ou alguém na praça pública ("vejam lá estes tipos que vivem à conta do nosso dinheiro e ainda se queixam"), é muito ilustrativo. Como alguém já escreveu, é incompreensível que uma companhia como a Cornucópia continue a ter que "demonstrar" o valor do seu trabalho cada vez que pede apoios. Mas nada disto se resolve com um estatuto de excepção.
Se há regulamentos, procedimentos, leis injustas – mudem-se, não para a Cornucópia, mas para todos. Quando Nuno Crato dizimou dezenas de centros de investigação no nosso país, justificava-se com a excelência: só ficavam os excelentes. Era uma irresponsabilidade, porque nenhuma instituição é excelente no meio do deserto. Nenhuma instituição é excelente sem estar num meio-ambiente diversificado. As leis, os regulamentos, os procedimentos – têm de respeitar e promover essa diversidade, não apostar na monocultura em que todos têm de ser iguais, de reproduzir o mesmo padrão, de falar para o mesmo público. Mas o conjunto tem de ter uma lógica, argumentável e escrutinável – coisa que não se pode substituir por excepções pressionadas por qualquer tipo de demagogia.
A Cornucópia fará um teatro elitista? Talvez. Mas há que ter algum cuidado com esse argumento. Temos, por exemplo, a televisão que temos, "porque estes são os programas que têm audiências". Aquilo que falta, poucos acham que falte - logo, não faz falta. Pela mesma lógica, há quem já tenha defendido que cursos como história ou filosofia não têm razão de existir. É pela mesma lógica que, agora, alguns dizem: essa companhia de teatro nunca procurou o grande público, portanto, que se dane. Verdade, verdadinha: o capitalismo mais primário ganhou (provisoriamente?) a batalha das mentalidades, convencendo tantos de que o valor de um bem cultural depende de quanto dele se pode vender com lucro. Por este andar, há muito por onde começar a dizimar (hoje liquidamos a Cornucópia, amanhã liquidamos a ópera, depois o ensino do latim e do grego clássico,…).
O Estado tem uma responsabilidade em não deixar morrer a Cornucópia? Tem. Tal como nós, os espectadores. Tal como a própria Cornucópia tem, também, a obrigação de não deixar morrer uma instituição que deve ser mais do que os seus génios criadores.
Algo que deixo dito constitui uma solução para o problema? Não. Mas pretende constituir um alerta para a natureza do problema, um alerta nascido na mente de alguém que não se conforma com o fim da Cornucópia, mas que, ao mesmo tempo, não vê isto como um caso particular, antes como uma questão atinente ao bem público. E que, como tal, não pode seguir apenas o caminho dos nossos sentimentos, mas deve seguir também os caminhos da nossa racionalidade partilhada.

18 de Dezembro de 2016

16/12/16

de luto pela Cornucópia.


(foto de Luís Santos)

A companhia Teatro da Cornucópia encerra as suas actividades. Uma notícia que magoa.

É amanhã..

Fico demasiado triste para investir mais palavras. Apenas repito um poema que dediquei ao Luis Miguel Cintra em 2014 (mais precisamente a 9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.) E neste poema abraço também a Cristina Reis e todos os outros que lá conheci - e também os que não conheci e, mesmo assim, pertenceram àquela casa.



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.




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16 de Dezembro de 2016

07/12/16

PISA 2015 - ou Passos, Crato e a iliteracia

10:52



A divulgação recente dos resultados de estudos internacionais, designadamente o PISA 2015, sobre literacia em áreas como Leitura, Matemática e Ciências vem, mais uma vez, confirmar tendências verificadas nos últimos 20 anos: a melhoria consistente do desempenho dos alunos portugueses nas três áreas avaliadas. A matemática, leitura e a literacia científica, Portugal teve uma melhoria de desempenho que, em dois domínios, elevou mesmo os alunos portugueses acima da média da OCDE.

Como afirmou o Comissário europeu com a área da educação, Tibor Navracsics: “Portugal é o único país da UE que tem melhorado de forma continuada o seu desempenho em PISA desde 2000”. Destacando essa melhoria progressiva, os relatores internacionais escrevem: “Entre os países da OCDE, Portugal tem melhorado mais de sete pontos a cada três anos, em média.”

Os defensores de Nuno Crato, e o próprio, vieram tentar apropriar-se destes resultados. Ora, essa apropriação é abusiva. Quando o PSD vem, pela voz de alguns dos seus principais responsáveis, tentar passar a ideia de que estes resultados se devem ao governo anterior, estão a tentar uma desavergonhada mistificação.

Em primeiro lugar, estes resultados mostram que a demagogia que acusa o sistema português de facilitismo é apenas isso: demagogia.
O sistema educativo que Crato, Passos e Marco António chamam facilitista é o sistema que conseguiu, em competências de leitura, trazer Portugal, de 470 pontos no ano de 2000 para 498 pontos em 2015. É o sistema que conseguiu, em literacia científica, trazer Portugal, de 459 pontos no ano de 2000, para 501 pontos em 2015. E que, no mesmo período, conseguiu que os alunos portugueses, a Matemática, progredissem de 454 pontos no ano 2000 para 492 em 2015. Em literacia científica e matemática acima da média da OCDE.
O progresso contínuo dos alunos portugueses, ao longo de tantos anos, desmente a tese do facilitismo, uma tese ideológica montada por Nuno Crato para justificar as ruturas que operou em relação ao relativo consenso anterior em matéria educativa em Portugal.

Mas, há que dizê-lo claramente, os que pretendem apropriar-se destes resultados a crédito do governo de Passos e Crato, têm, esses sim, um problema de iliteracia – não são capazes de ler os relatórios à luz da verdadeira história do que andaram a fazer.
Crato pretende que foram os exames nacionais de 4º e 6º anos, e as novas metas curriculares, que alavancaram estes resultados. Mas, se virmos quem são os alunos portugueses abrangidos pelo PISA 2015, percebemos imediatamente que aquelas pérolas da governação de Crato não têm nada a ver com estes resultados. Os alunos abrangidos por estes testes não foram atingidos por aquelas medidas de Crato. Veremos nos próximos anos se as medidas de Crato não tiveram mesmo o efeito contrário, atrasando o progresso que o país estava a trilhar. (Cf. As tentações de Crato e da direita perante os resultados do PISA.)

De qualquer modo, é sempre o trabalho concreto nas escolas, o esforço de professores e alunos, que permite avançar. As políticas públicas podem ajudar ou desajudar. Em duas décadas, os alunos portugueses têm progredido continuamente, melhorando os resultados nos testes internacionais. Nuno Crato, Passos Coelho e Marco António Costa não progrediram o suficiente para compreender quão desajeitada é a sua tentativa de apropriação de uma obra que nada se deve às entorses educativas que, por motivos ideológicos, tentaram introduzir na educação em Portugal.



7 de Dezembro de 2016

02/12/16

O BE, a visita do Rei de Espanha ao Parlamento… e a democracia

10:29


Já devemos estar todos fartos deste assunto, mas ele tem ainda uma “variante” que deve ser escalpelizada – porque se resvala muito facilmente para ideias perigosas acerca do que é uma democracia representativa.

Obrigo-me a recapitular, para depois chegar ao meu ponto.

Desde o primeiro momento fui muito claro quanto à forma que o BE escolheu para abordar politicamente a ida do Rei Felipe VI à Assembleia da República. Escrevi no FB:
«A propósito do acolhimento do Rei de Espanha hoje na Assembleia da República e das civilizadas manifestações de distanciamento produzidas por alguns deputados... Sou republicano - mas os reis não são todos iguais e acho que vale a pena julgar o papel histórico de cada um em concreto. Acho que a actual dinastia da monarquia espanhola merece crédito, até pelo contributo que deu para a democracia espanhola. E não esqueçamos que foi legitimada democraticamente. Continuo a pensar que uma república é mais democrática do que uma monarquia? Continuo. Mas isso não me impede de respeitar um rei que, julgo, respeita a ordem constitucional do seu país, que é uma democracia.»
O BE tomou uma posição política, da qual discordei politicamente: nada mais normal em democracia. E mesmo entre parceiros políticos que não deixaram de ser diferentes.

Contudo, rapidamente, em certos meios, a conversa resvalou para a “teoria” de que a atitude do BE tinha sido “má educação”. Alguns até elogiavam a postura do PCP (levantar-se, mas não aplaudir) para insistir que o BE tinha sido “malcriado”. Sem prejuízo do reconhecimento de que a atitude do PCP foi mais subtil, ou mais diplomática, é inaceitável que a posição do BE seja tratada como uma questão de “educação”. Desde logo, há que rejeitar a hipocrisia de alguns deputados que passam a vida aos berros no parlamento, a agitar os braços e a bater na mobília, tentando sobrepor essas manifestações ao uso das palavras – e que, de repente, apontam o dedo a outros deputados acusando-os de falta de educação... por ficarem quedos e mudos. É preciso ter lata.

Mas, deixando esses “de lata” de lado, subsiste o ponto: reduzir a questão política a uma questão de educação? Não aceito. Foi uma posição política. Discordo dessa posição política. Mas foi uma posição política. Têm direito a terem essa posição. É legítimo que tenham essa posição. Eu discordo. Mas não reivindico para a minha discordância nenhum privilégio, nem nenhuma superioridade moral. A diferença política deve ser isso: diferença política. Faz parte da democracia. Tentar deslegitimar aqueles que tomam posições políticas dentro do quadro democrático, não ferindo nenhum valor fundamental - é atitude em que não alinho. Todos os deputados cumpriram a elegância institucional de se levantarem à entrada dos convidados e quando foram executados os hinos de ambos os países. Não conheço nenhuma regra parlamentar que convide os deputados a aplaudir uma intervenção, ou a levantarem-se no fim de uma intervenção. Aliás, os deputados à esquerda do PS também não aplaudiram o discurso do Presidente da Assembleia da República, que foi um excelente discurso, de um progressista crítico mas europeísta, com uma crítica da globalização desenfreada mas numa perspectiva que eu chamaria internacionalista. Politicamente, dei mais importância à falta de aplauso da esquerda da esquerda ao discurso de Ferro Rodrigues do que à falta de aplauso ao Rei de Espanha. Mas, isso, parece que não foi notado por nenhum dos escandalizados com a situação.

Entretanto, outro argumento surge (designadamente nas “redes sociais”) e corre, no essencial e descontadas as variantes, assim: os deputados representam-nos a todos, os portugueses queriam receber bem os Reis de Espanha, os deputados do Bloco deviam ter representado essa vontade dos portugueses e “feito boa figura” e, com a sua atitude, não respeitaram a vontade dos portugueses: receber bem o Chefe de Estado espanhol.

Ora, aqui, calma, porque entramos num perigoso pântano. E, aí, temos de ser claros.
Cada deputado não representa toda a gente. Cada deputado tem que representar a posição que entende corresponder ao encontro da sua opinião e da opinião dos que o elegeram. Ou, até, que corresponde à sua avaliação da situação, mesmo que tenha consciência de que os seus eleitores não partilhariam o seu ponto de vista – já que o deputado não é um mero porta-voz automático dos eleitores, tem uma responsabilidade própria. É a diversidade da representação, daí resultante, que faz a democraticidade do parlamento. Alguém pretender que todos os deputados deviam fazer assim ou assado, porque todos me/nos representam, é pretender que algum particular (algum grupo, alguma instância) pode determinar qual é “a posição de todos” para lá da diversidade do todo. É que, em democracia, o todo é inapelavelmente diverso. Democracia é diversidade. E o parlamento representa essa diversidade. Não há nenhum ponto de vista exterior a essa diversidade que possa determinar o que é comum e todos tenham de respeitar. Exigir que este ou aquele deputado, este ou aquele grupo parlamentar, faça A ou B, porque essa seria “a vontade de todos” – é, tenham disso consciência ou não, um raciocínio que está fora da lógica democrática.

Alguns dizem que este assunto é da espuma dos dias. Não é. É nestes interstícios da vida democrática que entram os perigos, quando, em vez de assumir as divergências políticas, tratando-as como tal, tratamos de excomungar a diferença com argumentos que tentam domesticar a representação em nome de qualquer “unicidade”.


2 de Dezembro de 2016

26/11/16

Na morte de Fidel Castro

21:49


Fidel Castro acabou mal. Não por morrer, isso calha a todos, mas por não ter escapado ao destino de muitas revoluções no século XX (para não ir mais longe): acabaram em regimes opressores.
A liberdade e o respeito pelos direitos humanos são inegociáveis. Não há conciliação possível que um socialista democrático possa fazer sem respeitar essa fronteira: para nós, qualquer ditadura é horrenda, uma ditadura que se diga de esquerda é ainda mais dolorosa e mais nos envergonha. Não há socialismo sem liberdade, embora possa haver liberdade sem socialismo.
Dito isto, é insuportável a hipocrisia de alguns.
É insuportável a hipocrisia dos que esquecem o que era o regime que Castro derrubou. A hipocrisia dos que esquecem o que era a América que tanto pugnava pela liberdade em Cuba, mas ignorava direitos humanos básicos, por exemplo dos negros. Ou a hipocrisia dos que esquecem as conquistas sociais que Cuba realizou com a revolução. Conquistas essas que muitos países "livres" não garantiam e não garantem.
Algum destes factores desculpa a falta de democracia? Não, não desculpa. A perseguição aos opositores pacíficos, ainda por cima feita por meios violentos, é inaceitável. Mas, note-se, há quem não tenha autoridade nenhuma para se fazer defensor da liberdade dos cubanos: os que desculparam o facínora Pinochet, os que tinham palavras brandas para o apartheid sul-africano... ou mesmo os que desviam os olhos do bem actual proto-fascismo húngaro ou polaco.
Bem me lembro, quando a Polónia ainda era uma ditadura "comunista", e quando se organizavam sessões de solidariedade com o Solidariedade (sindicatos polacos com um programa político pró-democratização), que muitos aqui por Lisboa achavam isso um tanto arriscado e se encolhiam, deixando a solidariedade a pequenos partidos esquerdistas ou à Juventude Socialista, de que eu era dirigente nessa altura, tendo precisamente posto empenho nessas movimentações. Outros, mesmo de direita ou muito democratas, encolhiam-se porque não era conveniente. Não estava na moda ser um democrata radical. Mas, se calhar, alguns desses estão agora a bradar contra Fidel Castro depois de morto.
Infelizmente, os mortos relevantes dão muita ocasião a que os pequenos vermes levantem a cabeça e se façam muito tesos em matérias em que nunca tiveram sequer coluna vertebral.

26 de Novembro de 2016

24/11/16

As 3 bancarrotas socialistas

15:59


Há pouco tempo andava por aí um material de propaganda de um sector de uma juventude partidária de direita que propagandeava “as 3 bancarrotas socialistas” (1977, 1983, 2011), apontando para os momentos em que o FMI esteve em Portugal. Nesse caso, poderíamos pensar, era ignorância a alimentar um enviesamento político. Hoje, uma deputada do PSD, em pleno debate do Orçamento de Estado para 2017 em plenário da Assembleia da República, veio com a mesma conversa das 3 bancarrotas. Aqui, já não há desculpa possível. Porque, a este nível, não podemos tolerar que a desonestidade se confunda com a ignorância, deixemos sobre o assunto este breve apontamento.

De facto, o PS liderava o governo do nosso país em 1977. Portugal, devido ao difícil contexto internacional e à turbulência da revolução (sim, os fascistas não nos concederam a democracia, foi preciso derrubar a ditadura e fazer uma revolução, onde, naturalmente, nem tudo foi feito a régua e esquadro), teve de pedir a intervenção do FMI. Quem o fez foi o 1º governo constitucional, liderado por Mário Soares, onde era também ministro o Prof. Mota Pinto, fundador do PSD e seu futuro presidente. Ah, e também fazia parte desse governo o inefável crítico de tudo e mais alguma coisa, de seu nome Medina Carreira… O acordo com o FMI foi assinado já durante a vigência do 2º governo constitucional, igualmente liderado pelo PS, mas que contava também com o CDS na sua composição. Portanto, quanto à primeira “bancarrota socialista”, estamos conversados.

A segunda “bancarrota socialista” é de 1983. Foi o governo do chamado “bloco central” (uma coligação formal do PS e do PSD) que fez o novo acordo com o FMI. A realidade económica que a isso obrigou foi criada durante o governo anterior, o segundo governo da chamada “Aliança Democrática”, cujas principais forças eram o PSD e o CDS, com Pinto Balsemão como primeiro-ministro. Ministros das finanças da AD? Cavaco Silva, primeiro; João Salgueiro, depois. Esses governos da AD deixaram o défice da balança comercial em 10% do PIB, o desemprego acima dos 11% e a dívida externa em estado de alerta. Portanto, quanto à segunda “bancarrota socialista”, também estamos conversados.

Quanto ao processo de 2011, seria necessário mais espaço para analisar aqui a questão. Poderemos fazê-lo noutra oportunidade. Mas, para princípio de conversa, basta lembrar as palavras de António Lobo Xavier a 16 de Maio de 2013, no programa televisivo Quadratura do Círculo. Nessa ocasião, o histórico dirigente do CDS afirmou que foram o PSD e o CDS que forçaram a intervenção da troika em Portugal e que nem Merkel queria que o resgate tivesse acontecido assim. Segundo Lobo Xavier, PSD e CDS quiseram a entrada da troika em Portugal por razões de política interna, para pressionar o governo da altura (de José Sócrates). Lobo Xavier lembrou ainda que a ajuda europeia poderia ter ocorrido como em Espanha, sem Memorando e sem troika. (Como, aliás, também se fez em Itália.) Mas Portugal teve todo este aparato de “resgate” porque a oposição de então (PSD e CDS) assim o quis. Perguntado “quem quis?”, Lobo Xavier respondeu: “foi o aprendiz de feiticeiro”. E depois explicou quem fez o papel de aprendiz de feiticeiro: Pedro Passos Coelho.

Portanto, quanto às 3 bancarrotas socialistas, estamos conversados: essa teoria ilustra bem como a desonestidade política gosta de andar à boleia da ignorância.


24 de Novembro de 2016