25/04/17

Testemunho de uma noite mágica



[Em 2012, na véspera do 25 de Abril, publiquei aqui o texto abaixo. Volto a publicar, porque é um texto que vale a pena voltar a ler num 25 de Abril.]


A Júlia Matos Silva teve a enorme amabilidade de me dar a ler este seu "testemunho de uma noite mágica", a noite de 24 para 25 de Abril de 1974. Um testemunho na primeira pessoa, de uma gente e de um tempo em que a "primeira pessoa" era sempre uma enorme partilha com outras pessoas. Gostei do texto, achei-o relevante e bonito, apeteceu-me que fosse partilhado - e a sua autora, gentilmente, autorizou que aqui o publicasse. Faço da prenda de 25 de Abril, que a Júlia me endereçou, a vossa e nossa prenda de Abril, graças à Júlia Matos Silva. Daqui lhe agradecemos, Júlia - e passo-lhe imediatamente a palavra.

***  

TESTEMUNHO DE UMA NOITE MÁGICA


A minha noite de 24 para 25 de Abril de 1974 foi «a noite mais bela de todas as noites que me aconteceram», citando Ary dos Santos. A par dos muitos e outros deslumbramentos da minha vida, eu tive o privilégio de viver uma noite inigualável, na qual eu pude conjugar os valores da exigência utópica com o exercício fulcral da luta contra a ditadura. Esta é a memoria de um jornada particular, incrivelmente única.

Às cinco da tarde, o Fernando, o meu marido e cineasta Fernando Matos Silva, telefonou-me para o emprego e disse: «Júlia, não te esqueças que hoje temos o tal jantar. É muito importante. Convinha que viesses cedo.» Esta era a frase de código que havíamos combinado entre ambos para significar aquilo que ambos sabíamos que iria acontecer nessa noite.

No meu emprego, eu estava a viver uma situação profissional particularmente difícil. Desempenhava uma função, desde o princípio de Abril, que me recusara explicitamente a aceitar no início do ano, quando fora nomeada. Ameaçada de despedimento por desobediência à entidade patronal, eu vi-me forçada a assumir essa função, com uma promessa de ser transferida logo que houvesse um lugar compatível. Entretanto, durante os três meses anteriores, o meu dia-a-dia na empresa multinacional onde trabalhava há oito anos, decorrera de uma forma humilhante: sem função, nem telefone, nem gabinete e secretária, cumpria o horário de trabalho, de uma forma totalmente precária e insultuosa: sentada numa cadeira de uma sala pertencente a outra divisão. Estava totalmente proibida de entrar nos andares ocupados pela divisão de marketing. Com o ingresso de um novo diretor da divisão de marketing, um português torna-viagem vindo do Canadá, fora nomeada «assistente de marketing», cujo desenho de funções significava substituir-me ao serviço de pessoal e ser «os olhos e os ouvidos do rei», segundo as suas palavras. O meu papel seria controlar todos os cartões de ponto e contabilizar todos os minutos e segundos de não cumprimento do horário de trabalho, bem como relatar por escrito todas as conversas telefónicas que não fossem de serviço, ou controlar a produtividade dos vendedores, com critérios absolutamente subjetivos. Tinha ainda a missão de medir a produtividade do novo «pool» de dactilografia (formada por secretárias despromovidas a dactilógrafas), nomeadamente na contagem de linhas dactilografadas por pessoa. «Se for caso disso, quero um relatório da receita do sal e da batatinha e do nome de quem a deu ou o nome de quem anda a «brincar» fora do casamento e com quem», afirmava o diretor, para mim e para as outras duas pessoas que haviam sido nomeadas. No meu caso, nunca ele recebeu qualquer nota. De castigo, passei aos dias a imprimir rótulos com uma máquina de «dymo» para classificar as pastas do arquivo de todos os departamentos de vendas, segundo uma lógica totalmente determinada pela sua assistente pessoal.

Assim, imediatamente a seguir ao telefonema, fechei a minha secretária e abandonei o gabinete que partilhava, sem passar cavaco a ninguém. Naquele preciso momento, eu tive a certeza de que nunca mais iria sofrer uma tal humilhação. Saí simplesmente, sem falar com ninguém e ansiosa por chegar a casa.

O Fernando Matos Silva fazia parte de um pequeno círculo de civis, ligado ao MFA, completamente mobilizado para desenvolver várias ações. O centro dessa mobilização passava pelo jornal «República». Na qualidade de cineasta, o seu desígnio seria o de testemunhar e registar de câmara na mão, desde a primeira hora, todos os acontecimentos que se iriam suceder – e foram muitos de sua autoria. Admitia-se, no entanto, em várias reuniões clandestinas, a possibilidade de o Fernando e outros terem que ir para a televisão, no caso de os oficiais do MFA responsáveis pela ocupação da televisão, virem a enfrentar uma total resistência dos profissionais nucleares que nela trabalhavam (o que felizmente não aconteceu, embora as equipas de televisão só tivessem começado a sair na manhã do dia 25 de Abril.)

Quando cheguei a casa, já lá estavam o Fernando Matos Silva e dois importantes jornalistas do Jornal «República»: o Álvaro Guerra e o José Martins Garcia. E assim, fiquei a conhecer toda a cronologia de acontecimentos militares que iriam desencadear-se, a partir de uma determinada hora. Num outro prédio, numa rua perpendicular à nossa casa, estavam o cineasta João Matos Silva e uma equipa, juntamente com todos os equipamentos necessários.

Então, o cenário em minha casa, simultaneamente ansioso e temerário, era composto por quatro adultos, absolutamente convictos e dispostos a arriscar a alma e o físico. Para além deles, estavam os meus pais, dois antifascistas convictos que haviam vindo a Lisboa para uma consulta médica e um bebé de onze meses, a minha filha Cristina.

Na sala, que era, ao mesmo tempo de estar e de jantar, sentámo-nos à volta da mesa onde comemos bastante cedo, de uma forma rápida e nervosa. Quase ninguém comeu e quase ninguém falou, porque no meio de nós estavam dois adultos que não deviam ser envolvidos, por razões óbvias.

«Então não se pode ligar a televisão?», perguntou o meu pai, muito surpreso, por não se ouvir o telejornal. «Hoje não, pai! Eles precisam de trabalhar. Têm uma reunião.»

Levantámos a mesa rapidamente e no centro dela, foi posto um rádio ligado, perfeitamente sintonizado e pronto a fazer soar as surpreendentes senhas musicais. Entretanto, sentámo-nos à volta da mesa, embora, cada um de nós, com o nervosismo, se levantasse e sentasse repetidamente. Fumavam-se cigarros, uns atrás dos outros e pouco se falava, para que os meus pais não fossem envolvidos.

Antes da hora marcada, a campainha da porta tocou por duas vezes, com a diferença de alguns minutos. Naquele preciso momento e sem se conhecerem mutuamente, visitavam-nos dois amigos, totalmente estranhos ao que estava a suceder: o publicitário António Reis, com quem o Fernando estava a fazer um filme de publicidade e o meu primo Vicente Trindade, bailarino no Teatro S. Carlos. Nenhum deles percebeu o que acontecia, nem foi, envolvido de qualquer maneira. Guardou-se total segredo, porquanto tinham que ser protegidos de algo que não se sabia ainda como iria acabar. No dia seguinte, cada um deles manifestou a forma como tinham ficado surpreendidos com o facto de ninguém ter desenvolvido uma conversa de jeito e de terem achado estranho que um rádio a tocar dominasse a atenção de todos nós.

Assim, à hora marcada, os quatro adultos implicados, ouviram, num silêncio de bronze e sem poderem manifestar-se, o som gritante da 1ª senha. Para dar início às operações militares a desencadear pelo Movimento das Forças Armada. João Paulo Dinis, aos microfones dos Emissores Associados de Lisboa dizia:
«Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, “E Depois do Adeus...”».
E assim, a voz de Paulo de Carvalho inundou a sala e dominou os olhares, a voz contida e o frio na espinha de todos aqueles que a aguardavam, sofregamente, como um banho de luz no meio da maior escuridão.

Felizmente que os dois visitantes decidiram ir-se embora. Quando ficámos sós, entre abraços e sorrisos, saltámos todos num desconcerto. Havia que saborear aquela imensa alegria tão contida. E, excitados, ali ficámos todos, debruçados sobre o rádio, aguardando a hora da 2ª senha.

Sinalizando a continuidade das ações militares do MFA, no programa Limite da Rádio Renascença, ouviu-se a canção Grândola, Vila Morena, de José Afonso, gravada por Manuel Tomás e posta no ar por Leite de Vasconcelos. À meia-noite e vinte, Leite de Vasconcelos lê a primeira quadra da Grândola Vila Morena, marcando a leitura com o som dos passos arrastados que iniciam a canção: «Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade. //»

E o timbre inconfundível e arrebatador de Zeca Afonso espraiou-se naquelas quatro paredes, desarrumando os gestos daqueles que a aguardavam como o signo de todas as liberdades. Já não pudemos ouvir com atenção a leitura de poemas que se seguiu da autoria do jornalista da República Carlos Albino, que era colaborador naquele programa e que, a pedido de Álvaro Guerra e do Comandante Almada Contreiras, havia sido desafiado a enviar mais e prodigiosos sinais.

Naquela altura, era vital avisar outras pessoas significantes do Jornal República. Foi decidido que seríamos eu e o Fernando a fazê-lo. Antes de sair e muito seriamente, o Fernando dirigiu-se ao meu pai e à minha mãe – que já tinham, entretanto, sido informados de tudo o que estava a acontecer – e explicou o que íamos fazer.

«Pai Barata, Mãe Amélia, nós vamos avisar umas pessoas. Se nos acontecer alguma coisa tomem bem conta da nossa filha.»

E aqueles dois avós, antissalazaristas e antifascistas ferrenhos, ali ficaram calma e generosamente aguardando os factos, ao mesmo tampo que uma criança dormia serenamente, no quarto ao lado.

Quais namorados (ah! e tão amantes verdadeiramente!) saímos os dois num carro que não era o nosso, para cumprir um trajeto pré-definido: num prédio nas Amoreiras, avisámos o jornalista Alberto Arons de Carvalho; num outro prédio, na Av. Duque de Ávila, à porta do qual estava estacionado um carro, com dois homens com um ar pidesco, entrámos abraçados num longo beijo, para avisar o Belo Marques, responsável comercial do Jornal República; terminámos a ronda, num andar alto de um prédio na Avenida de Roma, onde morava o jornalista José Jorge Letria.

Destas investidas aventurosas, ficou-me a lembrança de uma noite anormalmente deserta e árida, como se a cidade numa paralisia excruciante estivesse já a pressentir o som áspero e cavernoso da queda do regime.

Quando regressámos a casa, sobraram, em todos nós, as horas sonâmbulas de uma expetativa insana. O telefone de casa já tinha sido cortado. Multiplicando-se em gestos e olhares e tremendamente ansiosos, cada um de nós aguardava, nervosamente, o grande sinal, simultaneamente pacificador e significativo de que o golpe vingava.

E às 04:20 da madrugada do 25 de Abril, fomos tocados pelo alcance de uma voz séria e ritmada, que significava, para todos nós, ou o início de todos os perigos ou o princípio da redenção:

«Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.
As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma. Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso dos comandos das forças militarizadas no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas. Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo. Não obstante a expressa preocupação de não fazer correr a mínima gota de sangue de qualquer português, apelamos para o espírito cívico e profissional da classe médica, esperando a sua ocorrência aos hospitais, a fim de prestar a sua eventual colaboração que se deseja, sinceramente, desnecessária.»

E assim na madrugada desse dia «inteiro e limpo», tal como o cantou a poeta Sophia, cada um de nós viveu as mais intensas e rútilas memórias da sua geração.

Pouco tempo depois, os jornalistas Álvaro Guerra e José Martins Garcia partiram para o Jornal República cumprindo a sua missão nuclear: dar vida à voz da liberdade. O Fernando Matos Silva e a equipa partiram pelas ruas de Lisboa, captando as imagens grandiosas da expressão generosa de uma aliança entre as armas e o povo. E são muitas dessas imagens que ainda hoje prevalecem para documentar o gesto grandioso de um país que venceu a ditadura, sem lágrimas de sangue. O olhar e a câmara do Fernando Matos Silva – que tinha visto o seu primeiro filme «O Mal-Amado» totalmente proibido pela censura – hão-de ficar indelevelmente livres, testemunhando os atos e as emoções dos militares e do povo.

Eu, perdi-me nas ruas do bairro, batendo às portas dos amigos, a maior parte deles convencidos que era um golpe do Kaúlza de Arriaga. Nem o relato da minha noite os conseguiu convencer totalmente sobre o que estava em andamento!

Teixeira de Pascoais dizia que «a saudade é a velha lembrança gerando um novo desejo». E da saudade que eu tenho desse tempo, só me resta o desejo de que o povo português se mantenha fiel à liberdade que conquistou no 25 de Abril. Nesta terrível liquefação dos valores vinculativos e estruturantes das sociedades democráticas do pós-guerra, aqui e na Europa, regressam os vampiros como se fosse uma festa!

Júlia Matos Silva


24/04/17

Macron vs. Le Pen

09:56


Os meus apontamentos ontem à noite (FB), depois de conhecidas as primeiras estimativas de resultado da primeira volta das presidenciais francesas:

«França: sempre estou para ver se alguma força de esquerda se escusa a apelar ao voto contra a extrema-direita.»

«França: há apenas uns meses todos julgavam que o vencedor sairia da extrema-direita ou da direita republicana. O que entretanto aconteceu deve ser julgado à luz desse cenário.»

«Desvalorizar o perigo Le Pen? Dizer que é mais ou menos o mesmo que Macron?! Estou um bocadinho cansado de malta de esquerda que adora lixar os outros a partir do seu sofá e do seu síndrome de comentador.»

«A França e nós. Hoje é dia de lembrar a inteligência política de Álvaro Cunhal nas presidenciais de 1986. E, já agora, de lembrar que muitos não aprenderam nada com isso.»

«Para que conste, não sou admirador de Macron. Por variadas razões, especialmente, porque desconfio de programas "modernizadores" que "não são nem de direita nem de esquerda". (De qualquer modo, cabe dizer que há muitos anos não voto por entusiasmo excessivo por este ou aquele: em geral voto com base no cálculo das consequências.) Contudo, é indubitável que Macron tem capacidade de mobilização por valores cívicos positivos (o que é bom, mesmo que isso não produza automaticamente um bom programa). De qualquer modo, mesmo que o homem seja neoliberal (e tem propostas que permitem suspeitar que assim seja), isso está a milhas de ser um espécime de fascista. Isto teria, sem dúvida, peso no meu voto se fosse eleitor francês.»

«Mélenchon está a falar e faz uma amálgama entre Le Pen e Macron. E não dá indicação de voto. De momento.»

«O PSF também pasokou (para já indirectamente, numas eleições não legislativas). Mas tenham calma: a crise da social-democracia europeia não atinge só os partidos que piscaram o olho à direita. Sanchez e Corbyn não estão nesse caso e não são exemplos de grande saúde política para os seus partidos (e isto não é, sequer, uma avaliação do seu valor próprio, mas do que conseguiram). Isto para dizer que não vale a pena tentar respostas simples para uma situação tão complexa.»


«Regressou a esquerda que não distingue entre o fascismo e o capitalismo democrático? Isso obriga-me lembrar os fundamentos: para mim, ser de esquerda não é separável de ser democrata. Mais: primeiro vem a democracia, é mais importante ser democrata do que ser de esquerda. E, sim, pode ser-se democrata sem ser de esquerda. Quem, em nome de qualquer ideia de esquerda, concede que o fascismo não é assim tão mau que mereça uma condenação inequívoca, não me merece consideração nenhuma. Dizer que Le Pen e Macron "venha o diabo e escolha", faz-me lembrar o pior.»

«José Manuel Fernandes também fala de Macron como um banqueiro. Que coincidência...»

«Outro derrotado das presidenciais francesas: as primárias. Nenhum dos candidatos saído de primárias passou à segunda volta. (Só para fazer pensar os que gostam de soluções simples e universais em política.)»

«Talvez agora se perceba a razão de ter havido dúvidas entre os comunistas quanto a renovar o apoio a Mélenchon.»

«O Partido Comunista Francês apela a barrar Le Pen na segunda volta, usando o boletim de voto. Algo que Mélenchon não foi capaz de fazer.»

«Capa do jornal dos comunistas franceses esta noite. [Imagem lá acima.] Há quem saiba quando não podemos hesitar.»

24 de Abril de 2017

19/04/17

L’important c’est la rose

15:02



Aproximam-se as eleições presidenciais francesas de 2017: no próximo Domingo, 23 de Abril, a primeira volta; a 7 de Maio, a segunda volta.

Está muita coisa em aberto e as lições do passado recente aconselham que evitemos certezas: nunca digas que Le Pen nunca ganhará, porque esta extrema-direita assenta em fenómenos populares muito concretos e que correspondem a problemas reais. Há uma parte do programa tradicional da social-democracia (e uma parte da sua base de apoio) que foi captada pela extrema-direita. E, já agora, no caso específico da França, também há uma parte da antiga base social de apoio do comunismo que levou o mesmo caminho. Portanto, a política está sempre em aberto. Mas essa abertura essencial do jogo político não tem que correr sempre contra as nossas ideias: há menos de um ano a convicção dominante era que esta batalha eleitoral se resolveria entre a direita e a extrema-direita, ficando a esquerda inevitavelmente de fora de uma segunda volta. Hoje, apesar de tudo, estamos num pé diferente.

Não serve este texto para tentar uma interpretação global da actual cena política francesa rumo às presidenciais. Serve apenas para explicitar um ponto muito específico, embora genérico, sobre a vida da social-democracia e do socialismo democrático na Europa, aplicando-o a França. O ponto é este: os socialistas só conseguem ter uma voz na condução dos seus países e na mobilização das suas sociedades quando são plurais, quando conseguem fazer a síntese de diferentes correntes presentes no seu espectro de representação. Pelo contrário, quando o sectarismo suplanta a capacidade federadora, os socialistas perdem.

Mencionemos apenas exemplos. Em Itália, a capacidade de juntar diferentes correntes da esquerda democrática, incluindo os que vieram do Partido Comunista, tem tido altos e baixos – e desses altos e baixos se alimenta a incerteza quanto à capacidade para constituir uma força coerente e suficientemente poderosa para aliar progresso social e reforma das instituições. Tem sido pouco noticiado, mas um sector significativo dos ex-comunistas retomou recentemente uma via própria, afastando-se de Renzi e seus aliados. Veremos no que isso dá, mas é uma ferida numa reunião de famílias que foi possível, embora de modo parcial, com o desaparecimento do eurocomunista Partido Comunista Italiano. Em Espanha, a crise do PSOE traduz-se na dificuldade em traçar uma orientação política que una os socialistas em torno de objectivos políticos imediatos e que, ao mesmo tempo, traduzam uma conduta compreensível para o conjunto da sociedade espanhola. A crise do PSOE só estará verdadeiramente ultrapassada quando serenar em torno da questão do seu papel no quadro das demais forças políticas da esquerda e do centro. Já o caso português mostra um PS que, no essencial, é capaz de fazer sínteses programáticas mesmo quando as rivalidades grupais ameaçam pontualmente o exercício. (Note-se como o PS absorveu o trauma que conduziu às primárias que levaram Seguro e trouxeram Costa.) Estes partidos, como outros, mostram flutuações: fases de ímpeto federador acrescentam capacidade (inclusivamente, acrescentam capacidade de diálogo e cooperação políticas com outros sectores da esquerda); fases de maior sectarismo, por sua vez, aumentam o isolamento e retiram eficácia política.

O Partido Socialista Francês tem sido, neste ponto, excepcionalmente persistente: há longos anos que o sectarismo entre correntes se acentua e as diversas tendências concorrem para a lógica de facção que torna camaradas em inimigos. As acusações múltiplas de “traição”, que foram sendo proferidas no caminho para as candidaturas presidenciais saídas do espaço do reinado de Hollande são, a esse título, perfeitamente esclarecedoras. O facto de Valls ter ido às primárias e, perdendo-as, renegar o processo (apoiando primeiro e depois desapoiando o vencedor), é mais um sinal de desagregração do PSF como instrumento político. É difícil encontrar um sinal mais claro do “vale tudo” em política. Aliás, a própria recusa de Macron em ir às primárias já antecipou este processo de “salve-se quem puder”.

Depois, que o candidato vencedor das primárias dos socialistas e dos ecologistas tenha sido abandonado por largas camadas dos seus “eleitores cativos” de uma primeira volta, mostra como o PSF deixou de cumprir a sua função de federador (função federadora que, há muitas décadas, estava na essência necessária da sua função política). A fraqueza do candidato dos socialistas, resultante da incapacidade para federar o campo do socialismo democrático, torna-se ainda mais gritante quando se somou a uma tentativa canhestra de substituir eleitoralmente outros sectores da esquerda – com o resultado de que, sendo o original preferível à cópia, Mélenchon engordou à custa dessa distorção. Não ser Mélenchon e querer vestir um fato parecido, em vez de valorizar a complementaridade entre diferentes formas de ser esquerda, só podia dar mau resultado. (É precisamente por essa razão que, apoiando eu claramente a actual fórmula de poder em Portugal, continuo convencido da justeza de o PS nunca trair a sua identidade – e de ser exactamente a partir da sua identidade que se torna indispensável a uma maioria de esquerda plural.)

Na perspectiva em que nos colocamos (a capacidade federadora dos partidos da família do socialismo democrático), um caso que merece atenção é o Partido Trabalhista britânico. Para um socialista português, habituado a que o partido funcione basicamente no esquema “a cada militante um voto”, e achando que esse é esquema democrático fundador (sem prejuízo de uma importante autonomia do grupo parlamentar), é por vezes difícil compreender o facto de as divisões actuais no Labour passarem em grande medida pela questão fundamental da própria natureza e orgânica do partido. (E, neste caso, a natureza do partido e a orgânica do partido são duas questões intimamente ligadas.) Já passou o tempo do predomínio, político e orgânico, dos sindicatos na vida do Labour. Agora há uma batalha entre o “partido parlamentar” e o “partido dos activistas” – entre, por um lado, os que privilegiam o peso dos deputados na escolha da liderança (e da linha política), argumentando que quem o povo escolheu para o representar ao nível do país é que tem legitimidade política acrescida para pesar na orientação do partido, e, por outro lado, os que defendem que os activistas (ou os militantes) é que ligam o partido às pessoas e, portanto, a capacidade do partido responder aos novos desafios passa por colocar aí a fonte essencial do poder. Como é bom de ver, a oposição entre as duas lógicas é fatal para um partido que tem de estar quer no parlamento quer na sociedade. Nem faz sentido ter um partido de costas voltadas para as instituições de representação democrática, nem faz sentido ter um partido desligado da participação cidadã democrática – tal como não faz sentido pensar que “os militantes” representam toda a diversidade da sociedade, quando muitas vezes deixam de fora todos os que têm uma ligação mais distante com a decisão política. Que esses “dois partidos” (dentro do Labour) estejam em choque frontal neste momento, é bem um sinal da profunda crise da capacidade de federar grupos e perspectivas diferentes – e isso, eleitoralmente, vai, provavelmente, pagar-se caro (como May e os Conservadores perceberam de forma tacticamente perfeita).

Dito tudo isto (um longo intróito), o que dizer sobre o PSF no que vem aí na França pós-Presidenciais 2017? Duas coisas.

Primeira, já muitos o disseram, o Partido Socialista Francês vai sair deste processo à beira da exaustão. Política e orgânica. Corre o risco de passar a ser apenas mais um no concerto da esquerda: Mélenchon joga tudo em passar à frente de Hamon, querendo ficar com o mesmo tipo de trunfo que o Podemos tentou em Espanha face ao PSOE. Nessa circunstância, o PSF terá muitas contas internas a ajustar. E, em qualquer cenário, um longo calvário a percorrer.

Segunda, e é esse o meu ponto, o PSF tem de reaprender a capacidade para ser uma força federadora na esquerda democrática francesa. E isso inclui (comecem a preparar-se para rasgar as vestes!) a capacidade do PSF para dialogar com Macron e o seu movimento. Aos que clamam “mas Macron nem sequer é de esquerda”, eu digo: essa tentativa de sermos nós a traçar as fronteiras de quem é e de quem não é de esquerda é uma tentação perigosa. Se Le Pen representa uma extrema-direita “social” muito perigosa (porque muito enganadora), a candidatura de Fillon representa uma versão marcadamente reaccionária da direita tradicional. Perante esses desafios, a esquerda democrática tem de saber criar pontes com todos os que podem contribuir para uma alternativa de progresso – incluindo, em França, Emmanuel Macron. Se Macron está, em muitos aspectos, tentado pela sereia neoliberal? Provavelmente estará – mas ele representa, do ponto de vista da mobilização cívica, uma fonte de energia que não pode ser desperdiçada. Não pode ser acolhida acriticamente, mas não pode ser desperdiçada. Ao mesmo tempo, creio que o PSF tem de ser capaz de retomar o diálogo com a esquerda da esquerda francesa – mas, para isso, tem de abandonar a tentação de a imitar. Tal como, em Portugal, defendo a colaboração do PS à sua esquerda, defendo, em França, a necessidade de o PSF dialogar tanto ao centro como à esquerda. Porque, insisto, o papel político do socialismo democrático na Europa passa, hoje, necessariamente, pelo exercício da capacidade federadora.

França é, agora, a próxima etapa do “caminho das pedras” do socialismo democrático na Europa. Não há forma de resistir ao domínio político e ideológico do neoliberalismo e do conservadorismo social que não passe por abandonar todo o sectarismo de facção e promover um espaço político federador à esquerda, que umas vezes vá mais longe e outras vezes tenha de se contentar com metas mais modestas, mas que actue politicamente sempre no interesse dos “muitos” e não ao serviço dos “poucos”. Poucas circunstâncias políticas exemplificarão isto melhor do que a actual situação em França. E para sabermos isto não precisamos de esperar pelo resultado das eleições.


19 de Abril de 2017

30/03/17

vamos sair do euro, vamos mesmo, BE ?!

18:39


Segundo o Bloco de Esquerda «É urgente preparar o país para o cenário da saída do euro ou mesmo do fim do euro». Para não me acusarem de intoxicação, não fui buscar o título-resumo à "imprensa burguesa", mas sim ao portal esquerda.net, que acrescentava: «No final da reunião da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, Catarina Martins sublinhou também que “numa Europa em degradação o nosso país não pode ficar alegremente no pelotão da frente para o abismo europeu». À imprensa, Catarina Martins ainda disse mais umas coisas, que metiam o actual Governo no mesmo saco do Governo anterior em matéria europeia, o que me parece escandalosamente injusto - mas não vou por aí.

Há aqui um ponto essencial a clarificar.
A direita, designadamente quando o PSD e o CDS estavam no governo, tentou empastelar a posição do PS com a posição do Syriza na Grécia. Andaram largos meses, em pura propaganda enganadora, a tentar vender que o PS adoptaria, chegando ao governo, uma postura de confronto com a UE e que isso seria uma desgraça para o país. Como se percebe hoje facilmente, esse discurso não tinha nada de verdadeiro, porque o PS é verdadeiramente um partido europeísta e não anuncia nem pratica posturas adversariais por princípio no contexto da UE.
Como outra face da retórica política nacional, a esquerda da esquerda tenta empastelar a posição do PS com a posição da direita adepta da ortodoxia económica dominante na UE, pretendendo que o governo se acomoda àquela ortodoxia. Como se percebe hoje facilmente, esse discurso não corresponde em nada à realidade, porque o governo de Portugal se tem empenhado firmemente em contribuir para mudar o rumo da política europeia. E, mais ainda, o governo tem trabalhado para criar no cenário europeu a margem de manobra que nos permita fazer a política que serve a nossa visão do país - mesmo quando isso vai contra as expectativas da ortodoxia económica dominante em Bruxelas. Os socialistas querem mudar a Europa - mas querem ficar na Europa. Mais precisamente na União Europeia, que é o único projecto viável para aprofundar a cooperação entre europeus.

O outro ponto diz respeito especificamente à questão da saída do Euro. Já nem vamos discutir o efeito pernicioso que teria no nosso entorno externo se fosse muito audível no mundo que partidos importantes da maioria parlamentar querem sair do Euro - e talvez, quem sabe, da própria UE. Mas, deixando isso de lado, é espantoso como algumas vozes são capazes de romantizar o tema da saída do Euro e descartar as consequências práticas que isso poderia ter.

Por esse lado, estando a comentar uma posição do BE, limito-me a dar a palavra a duas figuras relevantes desse espaço político: Francisco Louçã e Mariana Mortágua.

Em Março de 2012, Francisco Louça e Mariana Mortágua deram à estampa um livro, de seu título "A DIVIDADURA - PORTUGAL NA CRISE DO EURO", que na altura interpretei (do lado de Louçã) como um testamento político num ponto essencial, que resumiria assim: "não me misturem com essa malta que defende a saída do euro, porque não quero arder na fogueira dessa irresponsabilidade, se vier a acontecer". Claro que o livro, depois, argumenta sobre o cenário de sairmos do Euro nos nossos próprios termos e segundo os nossos melhores desejos. Mas sempre achei que o essencial da mensagem política era "cuidado com essa ideia perigosa de sair do Euro" - até porque "sair do Euro nos nossos próprios termos e segundo os nossos melhores desejos" é, em si mesmo, um projecto politicamente atirado para o domínio da aventura com as nossas próprias vidas.

Mas, enfim, para vossa reflexão deixo-vos largos excertos do primeiro capítulo do tal livro. É uma leitura longa, mas vale a pena.


Francisco Louçã, Mariana Mortágua,  A DIVIDADURA - PORTUGAL NA CRISE DO EURO

Excertos do Capítulo 1 : E se nos impuserem a saída do euro?

Comecemos pelo princípio, pela decisão de criar a nova moeda, que se voltaria a chamar escudo. O cenário é então este: o governo, perante as dificuldades económicas, decide aceitar o ultimato da Alemanha e declarar a saída do euro, para passar a usar o escudo como moeda nacional.
Manda então imprimir em segredo as notas de escudo e prepara-se para anunciar a grande novidade, numa sexta a noite, a hora do telejornal, quando os bancos já estão fechados (ou decreta um feriado bancário durante vários dias). Nesse fim-de-semana, todos os bancos fazem horas extraordinárias para distribuir as notas por todos os multibancos, para que a nova moeda possa entrar imediatamente em circulação.
(…)
O que vai acontecer, em qualquer caso, é que toda a gente descobrirá que se prepara uma nova moeda. Esta operação de lançamento do escudo envolve milhares de pessoas, que transportam e distribuem as notas, e que irão certamente contar às suas famílias. De qualquer modo, todos assistiram nas semanas anteriores a declarações dos ministros a explicar que a situação vai muito mal e que serão necessárias medidas corajosas para salvar a Pátria. Todos assistiram as cimeiras europeias de emergência e perceberam o que se estava a passar. Há segredos que simplesmente não podem ser guardados.
O que farão então as pessoas? Não é preciso adivinhar: vão a correr aos bancos levantar todas as suas economias e guardar as notas de euros. Se não o fizerem, as suas poupanças vão ser totalmente transformadas em escudos, a um valor nominal que cairá com a forte desvalorização que, afinal, é o objectivo desta operação. Ou seja, as poupanças vão ser tão desvalorizadas quanto a moeda em que passam a estar registadas. Os trabalhadores que depositaram salários e pensões vão ser as primeiras vítimas da nova política. Por isso, vão tentar salvar o que puderem.
Não são só os trabalhadores, diga-se de passagem. Haverá uma enorme fuga de capitais. As empresas, os fundos financeiros, todas as instituições que tiverem dinheiro depositado nos bancos que atuam em Portugal quererão pô-lo lá fora, onde sintam que os seus depósitos ficam protegidos da desvalorização.
Ora, os bancos não querem pagar aos clientes todos os seus saldos, porque esta corrida iria arruiná-los. Não querem nem podem, pois simplesmente não têm o dinheiro para isso - nem há nos bancos notas suficientes para pagar de uma vez toda a sua dívida aos seus depositantes. Os bancos vão por isso fechar as portas quando se generalizar o alarme e o governo terá de chamar o exército para guardar os edifícios. Foi assim na Argentina e na Rússia, foi assim em todos os casos em que se anunciaram grandes desvalorizações (e nem se tratava de sair de uma moeda e criar outra, o que nunca aconteceu na história da União Europeia), com a agravante de que neste caso a moeda que circulava é retirada para ser substituída por outra, fortemente desvalorizada.
Quem defendeu como alternativa imediata a saída do euro começa então a ter a primeira dificuldade. É que o exército e os bancos vão atuar contra a população. E as primeiras vítimas são os depositantes. Se a desvalorização for de 50%, como calculam alguns economistas que defendem tal alternativa, as poupanças dos trabalhadores irão perder metade do seu valor.
O que é muito provável, em contrapartida, é que durante algum tempo circulem paralelamente notas de euro e de escudo e que esta dupla referência de preços tenha um efeito inflacionário forte, além de conduzir a uma desvalorização exagerada do escudo. Pode ainda criar perturbações nos mercados, com o açambarcamento de produtos, dado o medo em relação à evolução económica. Nesse momento terá lugar uma corrida aos supermercados e haverá uma diminuição de produtos nas prateleiras, até que a nova situação económica tenha assentado. A vida não vai ser fácil depois do euro.

QUANTO É QUE DEVEMOS AO BANCO?

Chega depois o segundo choque. Metade das famílias portuguesas tem uma longa dívida ao banco, que lhes emprestou dinheiro para comprar a casa que será paga durante muitos anos. Estes empréstimos foram feitos em euros. E, no dia da saída do euro, o governo tem duas opções: 1) aceita o que os bancos querem, que estas dívidas das famílias sejam consideradas ao seu valor anterior em euros; ou 2) decreta, para proteger os devedores, que as dívidas sejam transformadas em escudos. Na prática, só terá a última alternativa, porque a convulsão social agravada pela multiplicação da dívida seria insustentável.
De facto, se o governo permitisse que se mantivessem os créditos em euros (como foram contratados), as pessoas ficariam muito mais acorrentadas à dívida. Imaginemos quem tinha 100 mil euros de dívida, convertidos, ao escudo desvalorizado, numa dívida de 30 mil contos. Se o seu salário antes da desvalorização era de 1000 euros (na nova moeda, 200 mil escudos, ou 200 contos, que depois, com a desvalorização, passam a valer só cerca de 670 euros) e se usava metade para pagar ao banco, precisava antes de cerca de dezassete anos, com a corda ao pescoço, para pagar a dívida. Agora, precisará de vinte e cinco anos com as mesmas dificuldades, dando a mesma metade do seu salário ao banco. Perdeu oito anos.
No segundo caso, em que o governo denomina as dívidas aos bancos em escudos, ao valor anterior a desvalorização, como deve fazer, quem tinha uma dívida de 100 mil euros passa a ter uma dívida de 20 mil contos... que valem cerca de 67 mil euros. O banco ficou a perder. O problema é que, com este processo de desvalorização da dívida, o banco vai a falência, porque criou um buraco gigantesco no seu balanço e as suas dívidas à banca internacional continuam em euros. Não tem forma de pagar as suas dívidas ao estrangeiro.
É por isso que os defensores da saída do euro explicam, honestamente, que será necessário nacionalizar todos os bancos, não necessariamente para socializar o capital financeiro, mas antes para o salvar. Ora, salvar um banco pode custar muito caro, como já sabemos pelo caso BPN. Porque, quando se nacionaliza um banco, fica-se com os ativos, mas também com as suas dívidas, que são dívidas a quem nele depositou e dívidas a quem lhe emprestou dinheiro, normalmente a banca estrangeira. Essa dívida está em euros, mas o banco, falido e nacionalizado, vai receber as suas receitas e depósitos em escudos desvalorizados, para continuar a fazer pagamentos no estrangeiro em euros. A dívida pública disparou do dia para a noite porque o Estado ficou com os 175 milhares de milhões de dívida dos bancos. Salvar os bancos tem um custo e não é pequeno: as dívidas dos bancos, que antes eram privadas, passam a ser públicas porque foram nacionalizadas.

AUMENTO DE IMPOSTOS

Chegados aqui, já sabemos o que se vai passar: para pagar as dívidas da nacionalização da banca, vai haver um novo aumento de impostos, desta vez para financiar a banca internacional. O trabalhador, cuja dívida pessoal foi protegida, tem de pagar por outra via, que serão os novos impostos. Claro, é fácil imaginar que o governo simplesmente declare que não paga as dívidas internacionais dos bancos privados que nacionalizou. Mas, então, toda esta operação da desvalorização da nova moeda pode ser posta em causa, porque o seu objectivo era aumentar as exportações para mercados abertos, de modo que o aumento das vendas de produtos portugueses salvasse a economia.
Por outro lado, esta decisão tornaria ainda mais difícil o acesso da economia a financiamento externo. (…)
(…) Com tudo isto, os trabalhadores depressa perceberão que perderam parte do seu salário (ou da sua pensão), que o esforço orçamental não diminuiu (pelo contrário, agravou-se, pois a dívida vai ser paga em euros mas os impostos são recebidos pelo Estado em escudos, sendo precisos cada vez mais escudos por cada euro) e que a saúde e a educação têm novos cortes. Por tudo isso, o trabalhador vai lutar por recuperar o seu salário.
Ora, isso pode deitar tudo a perder, dirá o governo. (…) O país está em alvoroço, houve motins à porta dos bancos porque os depositantes perceberam o que iam perder, os impostos e preços estão a subir, os salários a descer. Então, o governo tem duas opções: a solução dos presidentes argentinos, que fugiram do palácio de helicóptero, ou a solução da repressão.
 Por outras palavras, a saída do euro meteu-nos numa alhada. (…)

SALVAR A ECONOMIA COM AS EXPORTAÇÕES

Passou assim o segundo choque. Mas vem aí mais e pior. (…)
(…) com a desvalorização, o preço dos produtos importados aumentaria no mesmo dia. O combustível passaria a custar uma vez e meia o seu preço anterior e todo o sistema de transportes também: imagine o litro da gasolina a 480 escudos (ou 2,4 euros actuais). O mesmo aconteceria com os alimentos importados ou com os medicamentos, entre tantos bens de primeira necessidade. Nos supermercados, os bens faltariam, mas os que estivessem à venda seriam imediatamente mais caros.
Como dois terços do rendimento dos portugueses são gastos no consumo, imagina-se o efeito destes aumentos de preços. Este impacto faria, por si só, com que o salário passasse a valer ainda menos.
Quanto as exportações, é óbvio que podem aumentar. Mas muitos economistas vêem a sociedade como um laboratório e esquecem demasiadas vezes os tempos da decisão e dos resultados das políticas. Ora, esses tempos vão ser essenciais neste caso, por uma razão simples: é que os preços das importações aumentam de imediato, mas os efeitos do possível aumento de exportações vão demorar algum tempo. Até pode ser muito tempo.
(…) Para que as exportações possam liderar o processo de crescimento será necessário reverter décadas de desindustrialização em Portugal e de especialização da economia em sectores não transaccionáveis. É sem dúvida desejável, mas demorado e difícil de executar a curto prazo.
Além disso, é preciso levar em consideração o custo da matéria-prima e de outros recursos que são importados, para determinar o preço dos produtos que a economia portuguesa exporta. Como metade do valor das exportações depende de produtos importados, e estes se tornam mais caros com a desvalorização da moeda, o ganho de competitividade das exportações é diminuído. Por tudo isto, as receitas das exportações aumentam pouco, devagar e mais tarde. Entretanto, a vida ficou mais cara, os depósitos foram abalados pela desvalorização, o aumento de emprego e de exportações demora algum tempo e é incerto.
(…)

30 de Março de 2017

29/03/17

Uma pergunta sobre o Brexit.

16:32




O Reino Unido fez chegar hoje a Bruxelas a carta que desencadeia o processo de saída daquele Estado-Membro da União Europeia, previsto no artigo 50.º do Tratado de Lisboa. Esperaram nove meses para dizer oficialmente e por escrito o que ficou pública e politicamente decidido no referendo de Junho do ano passado. (Preparem-se para o estilo negocial britânico…)

Agora, que o relógio está oficialmente a contar, os mais europeístas lamentam a primeira saída da comunidade – mesmo os que, em surdina, dão razão a De Gaulle e julgam que melhor seria os britânicos nunca terem entrado. Os mais cépticos celebram a possível desagregação da UE que aí venha, celebram a “vontade popular” expressa numa consulta popular directa – e evitam olhar para o lado, para não verem com quem acompanham nessa celebração (pelo menos aqueles que justamente se incomodam por se acotovelaram com Marine Le Pen e quejandos nessa trincheira).

Aqui deste lado, do lado dos que, conscientes das debilidades da União Europeia e críticos da sua orientação nos anos mais recentes (designadamente, críticos da forma como reagiu, tarde e mal, à Grande Recessão, sem ter aproveitado para corrigir os mecanismos que agravam as dinâmicas de divergência face a choques assimétricos), do lado dos que não confundem querer outra UE (e queremos) com uma ruptura com a UE, que nos deixaria mais isolados e mais fracos num mundo selvaticamente globalizado – deste lado temos outras perguntas para fazer.

A matriz de todas as perguntas políticas acerca do Brexit é esta: o que queremos que resulte dos anos de negociação que aí vêm? A União Europeia vai avançar, no sentido da prosperidade partilhada que a orientava e hoje ninguém vê no horizonte, ou vai afundar-se no aumento das desigualdades sociais e entre países e regiões? E o Reino Unido: o que vai ser depois do Brexit? Sim, o Reino Unido continuará a ser Europa e a sorte dos seus cidadãos não nos pode ser indiferente.

Podemos fazer uma versão específica da pergunta-matriz. Essa pergunta é: o que podem os trabalhadores esperar do Brexit?

A Confederação Europeia dos Sindicatos apresentou ao negociador pela UE, Michel Barnier, um documento onde propõe que se trabalhe para que o Brexit preserve os direitos do trabalho, tanto no Reino Unido como nos 27 restantes, no que toca ao emprego, aos padrões de vida e aos direitos dos trabalhadores, combatendo a ameaça de que o Brexit seja um acordo meramente virado para o livre comércio, assente na concorrência por baixos salários, baixos impostos e baixa protecção dos direitos.

Essa contribuição da Confederação Europeia dos Sindicatos (que pode ser lida aqui) não procura definir por antecipação o resultado do processo. O que procura, sim, é definir um método e umas balizas que garantam que, do Brexit, os principais perdedores não sejam os trabalhadores e a dignidade do trabalho. Para que isso seja possível, importa, por exemplo, garantir que o Pilar Europeu dos Direitos Sociais não valha apenas para a Eurozona, mas sim para toda a União.

O que colocou em cima da mesa a Confederação Europeia dos Sindicatos parece uma abordagem sensata. E, de uma perspectiva de esquerda, parece-me muito mais relevante e útil do que celebrar a desagregação da União Europeia.

29 de Março de 2017

21/02/17

"Era digital e robótica: implicações nas sociedades contemporâneas"

19:54


Hoje estive na Conferência Parlamentar "ERA DIGITAL E ROBÓTICA: IMPLICAÇÕES NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS", que teve lugar na Sala do Senado da Assembleia da República. Coube-me fazer a intervenção em nome do Grupo Parlamentar do Partido Socialista. Aqui deixo o texto dessa alocução.

Para abordar o tema “Era digital e robótica: implicações nas sociedades contemporâneas”, precisamos deixar de lado as simplificações inspiradas seja pela tecnofobia seja pela tecnofilia, recusar o determinismo tecnológico e encetar o estudo dos desafios e oportunidades envolvidas na sua complexidade e incerteza, com recurso ao conhecimento disponível e à deliberação democrática.

Já todos estamos familiarizados com a pergunta: se um automóvel autónomo, a circular na via pública sem condutor, tiver um acidente, quem responsabilizamos: os ocupantes do veículo na circunstância, o construtor, os engenheiros que programaram a autonomia do veículo, ou os sistemas de informação que coadjuvam a circulação do veículo?

Se estas questões são principalmente jurídicas, outras podem tocar aspectos propriamente antropológicos.

Quando, em 2013, visitei o laboratório do professor Hiroshi Ishiguro, na Universidade de Osaka, pude observar os robôs humanóides da linha GEMINOIDS. Os robôs humanóides são, habitualmente, robôs com alguma semelhança genérica com o corpo humano: cabeça, tronco, pernas, braços, boca, olhos, orelhas. A forma humanóide de um robô facilita que saibamos como interagir com ele: entendemos facilmente onde estão as câmaras de vídeo que captam imagem, onde estão os microfones que captam som. Mas os robôs GEMINOIDS não são humanóides dessa forma genérica. Cada exemplar Geminoid é uma cópia, um duplo, um gémeo mecânico de uma pessoa particular. O primeiro Geminoid foi um gémeo do Professor Ishiguro. E já há versões mais actuais do Ishiguro robô. E já há gémeos robóticos de outros humanos.

Os Geminoids não são robôs completamente autónomos, são parcialmente teleoperados à distância. Sem tempo para explicações técnicas, interessa dizer que o Professor Ishiguro pretende construir robôs que sejam capazes de passar por pessoas. Disse mesmo uma vez: “se há falta de pessoas, porque não fazemos algumas?”. O gémeo humano poderia controlar não apenas um gémeo robô, mas dezenas de gémeos robôs. E sugeriu aplicações: num serviço, vários robôs gémeos podem tratar do atendimento ao público, com um único gémeo humano a controlá-los, intervindo este apenas em situações de disfunção. E os utentes sentir-se-iam atendidos por humanos. Estamos, aqui, julgo, a tocar questões mais fundamentalmente antropológicas do que as questões de responsabilidade civil. E a tocar questões éticas.

Seria enganoso, contudo, reconduzir a nossa problemática necessariamente para este tipo de robôs. Um conjunto de sensores, um conjunto de actuadores, e algoritmos que liguem os primeiros aos segundos, fazem um sistema robótico, mesmo que esses elementos estejam apenas ligados sem fios e distribuídos por diferentes locais, por exemplo numa praça pública, de forma que um leigo nem sequer se aperceba.

Já há certos domínios da interacção social a ser profundamente transformados pela presença massiva de agentes não-humanos, de modos tais que os humanos envolvidos não têm como distinguir a acção dos humanos da acção das máquinas.

Um exemplo vem dos mercados financeiros, com a chamada “negociação automática”, consistindo no uso de computadores para compra e venda, extremamente rápida e massiva, de produtos financeiros em mercados electrónicos globais. O uso de poderosos algoritmos permite uma especulação automatizada que resulta lucrativa basicamente por ser rápida e massiva. Em poucos anos, o tempo de execução destas operações baixou dramaticamente de segundos para microssegundos, havendo indicações de que representam cerca de metade do volume negociado nas bolsas americanas e europeias. Nestas situações, os traders envolvidos não sabem se estão a interagir com pessoas ou com máquinas. Anote-se, aqui, a recente proposta de lei do governo sobre o Regime sancionatório do direito dos valores mobiliários, que inclui algumas destas acções na categoria de operações susceptíveis de pôr em risco o regular funcionamento dos mercados.

Sim, a influência de produtos da Inteligência Artificial nas nossas vidas não está para chegar: já está entre nós.

E quando falamos em Inteligência Artificial falamos também de “machine learning” (máquinas que aprendem), falamos de programas que resultam de técnicas de evolução artificial (que não foram explicitamente escritos por um humano), falamos do cruzamento das nanotecnologias com a robótica, por exemplo para uso médico no interior dos nossos corpos. Ou falamos de guerra, de guerra à distância de milhares de quilómetros.

Um aspecto importante do que está a acontecer é a Internet das Coisas.

A Internet das Coisas será uma rede global de “coisas inteligentes”, assim ditas por serem identificadas individualmente, por disponibilizarem informação e por recolherem informação de forma massiva, entrando na nossa interacção social. E não estamos a falar apenas de computadores e telefones, estamos a falar de televisores que registam o que vê cada membro da família, frigoríficos que sabem o que cada um come, camas que sabem quem lá dorme, carros que denunciam onde fomos, medicamentos que ajudam a calcular que doenças temos, passaportes que transmitem os nossos roteiros, peçam de roupa que nos localizam e que recolhem dados sobre a nossa condição física. E tudo isto pode ser justificado benevolamente. Já há projectos, por exemplo, para colocar etiquetas de radiofrequência em notas de banco, para poder seguir cada uma individualmente e assim melhor se poder combater a corrupção. Tudo isto representa a possibilidade de uma avassaladora invasão de privacidade, tornando-nos uma fonte contínua, e talvez inconsciente, de documentação pública da nossa vida privada.

Pensando em termos de impacte no trabalho e no emprego, temos de olhar para a economia das plataformas digitais, que mobiliza uma conectividade ubíqua, omnipresente, para fazer do acesso a plataformas digitais a base de novas formas de negócio, não apenas para mobilizar consumidores (que compram livros, ou serviços de transporte, ou alugam apartamentos na net), mas também para comprar força de trabalho em formas que escapam largamente à regulação do Estado Social de Direito.

Vamos dizê-lo desta forma: há um novo actor nos mercados de trabalho: a multidão. A mecanização, na sua forma digital, dispensa as massas de trabalhadores reunidos numa empresa e recruta indivíduos isolados, que trabalham separados uns dos outros, dispersos por todo o mundo, uma multidão atomizada.

Uma forma de mencionar estes esquemas é chamar-lhes “outsourcing online”, por exemplo com o recrutamento online de trabalho barato e pouco qualificado.
Exemplo é o Amazon Mechanical Turk, onde, 24 horas sobre 24, sete dias por semana, alguém compra tarefas e alguém realiza tarefas em troco de um pagamento. Diz-se que são “Tarefas de Inteligência Humana” porque, sendo tarefas relativamente simples, os computadores são ainda ineficientes na sua execução. Exemplos: processar fotos ou vídeos para encontrar certos conteúdos, editar um ficheiro áudio e passar para texto escrito, verificar um grande catálogo para detectar erros.

Nestas plataformas, desaparece o enquadramento das leis laborais, desaparece a negociação colectiva, desaparece a organização dos trabalhadores, em muitos casos desaparece simplesmente a noção de direitos dos trabalhadores.

Uma multidão dispersa e anónima, de indivíduos isolados, face a empregadores globais sem rosto, é o inferno da desprotecção absoluta do trabalho.

Como desafio ao Estado Social, cabe notar que esta economia das plataformas, globalizada e desregulada, contém riscos para os sistemas públicos de segurança social e, mais geralmente, para o financiamento do Estado Social. É preciso aprofundar o debate, que o PS relançou recentemente, acerca da necessidade de alargar as fontes de financiamento da segurança social. Os que falam em impostos sobre o trabalho dos robôs falam, mesmo que por vezes de forma imprecisa, da necessidade de pensar as consequências de economias mais capital-intensivas.

Importa sublinhar que não são as máquinas que nos obrigam a usá-las desta ou daquela maneira. As máquinas abrem certas possibilidades, boas ou más, mas a escolha é colectivamente nossa. Para dar o exemplo da saúde: podemos usar robôs que supostamente são cuidadores de idosos e, na verdade, estarmos a condenar os idosos a ficarem sozinhos com máquinas. Mas o uso de robôs em ambiente hospitalar pode ser profundamente humanizador.

Foi assim com o robô humanóide Gasparzinho, que o Instituto de Sistemas e Robótica colocou na ala pediátrica do IPO de Lisboa, um projecto no qual ainda pude participar. Ora, o Gasparzinho, interagindo com as crianças em actividades educativas e de entretenimento, foi capaz de melhorar a qualidade de vida daquelas crianças. Num ambiente difícil, e muito regulado no plano ético, o robô contribuiu para a humanidade dos intervenientes.

O que vos digo não é uma justificação articulada do conjunto de razões que podem levar um Parlamento democrático a debruçar-se sobre estas questões. O que vos digo, no tempo disponível, é meramente impressionista e deixa por mencionar muitos aspectos cruciais. Mas espero que seja suficiente para marcar este alerta: a Assembleia da República deve dotar-se dos mecanismos necessários para estar preparada para os desafios que a Inteligência Artificial, a Robótica, a Internet das Coisas, e outras tecnologias associadas, colocam às nossas sociedades, para saber quando, e como, deve intervir como legislador responsável e atento.

O Parlamento Europeu já começou a fazê-lo, com uma resolução adoptada na semana passada, onde propõe uma Carta Europeia da Robótica, incluindo códigos de conduta para diversas categorias de profissionais, solicitando à Comissão Europeia que tome iniciativas legislativas e considere a criação de uma agência europeia para lidar com estas questões.

Teremos, na Assembleia da República, de encontrar os nossos próprios caminhos para fazer a nossa parte, como legislador prudente agindo com base no melhor conhecimento disponível.

Uma nota final. Estas questões não são questões tecnológicas, são questões de sociedade. E dou apenas um exemplo. Quando dizemos que as nossas crianças usam e abusam do tablet, podemos dizer que não há mal nenhum em usar o tablet. Temos é que ensiná-las a combinar o que está no tablet com o conhecimento do avô e da avó, que os liga a uma rede social, a uma rede de memória, a uma rede de cultura, a uma rede de tradição. Esses são os nossos desafios, civilizacionais.



21 de Fevereiro de 2017

14/02/17

A esquerda plural, por cá e alhures

18:17


Coisas nada evidentes.

Uma das razões pelas quais sou a favor da "esquerda plural" a fazer maioria parlamentar em Portugal é por ela contribuir para tentar reverter algum do sectarismo entre as diversas componentes da esquerda portuguesa.

Olhando para França, onde o sectarismo à esquerda é uma doença prolongada e agravada, vejo a necessidade urgente de um tratamento que comece a curar esse muro. Já defendi que, em vários países da UE, é preciso um novo diálogo entre a esquerda social-democrata e a chamada esquerda radical, até para enfrentar o problema central da capacidade de representação de que é capaz o sistema político. Aplico esse raciocínio à França, entre outros.

Só que, em França, a esquerda precisa de curar sectarismos em duas frentes. Precisa de curar o sectarismo na "esquerda da esquerda". E também precisa de curar o sectarismo na "direita da esquerda". O facto de Macron poder vir a ser a melhor hipótese de não eleger um presidente fascista nem um presidente extremamente reaccionário, e ao mesmo tempo só ter chegado a candidato por recusar as primárias dos socialistas e ecologistas, deve fazer-nos pensar. Tal como nos deve fazer pensar o facto de Macron, uma espécie de Terceira Via à francesa, coincidir com um candidato oficial do PS muito à esquerda do posicionamento "médio" do partido (pelo menos no discurso).

Sempre insisti que a esquerda democrática, para ser uma alternativa de progresso com capacidade para ser poder, tem de saber falar com muitos primos diferentes. Em França, a falta dessa capacidade sente-se como em mais lado nenhum. E precisa-se, como em muitos outros lados.


14 de Fevereiro de 2017

11/02/17

O Professor Francisco Louçã.

16:01


O Professor Francisco Louçã despende algum do seu tempo e das colunas do Público a partir do mote da minha entrevista no sábado passado, quando defendi que “A esquerda tem de pensar uma agenda para a década" (clicando no título chega lá). Infelizmente, não parece ter-se decidido a gastar o seu precioso tempo em qualquer avanço na conversa, antes tendo preferido um ar professoral que usa sistematicamente quando se dá a essa tarefa pouco estimulante de comentar o que eu digo sobre a esquerda. Assim sendo, também só quero deixar breves notas, todas elas realmente periféricas ao que realmente interessa.

Primeiro, o Professor Louçã é pouco rigoroso. Contrariamente ao que escreve, o PS não levou uma “Agenda para a Década” às eleições. O PS levou às eleições um programa eleitoral, que é a base do programa do atual governo – programa de governo que resultou do nosso programa eleitoral e dos acordos à esquerda. Que, pelos vistos, podiam ser compatibilizados. Embora o Professor Louçã escreva que os acordos do PS com o PCP e o BE se fizeram contra o programa do PS – o que mostra bem a velha técnica de alguns que só vivem bem dando a ideia de que o que é bom na acção do PS só se pode fazer contra a vontade do PS. Mas, repito, não foi a Agenda para a Década que o PS levou às eleições. A Agenda da Década é outro documento, que António Costa levou, em mão, a todos os partidos parlamentares depois da sua eleição como Secretário-Geral do PS, dizendo nessa ocasião que não era “pegar ou largar”, mas, antes, a nossa proposta para um diálogo estratégico para o país que envolvesse objectivos para lá do imediato. Não sei se a falta de rigor do Professor Louçã reside no desconhecimento do documento “Agenda para a Década” ou, menos prosaicamente, na recusa em compreender que o futuro do país não se constrói apenas pensando no curto prazo.

Segundo, o Professor Louçã insiste em se atribuir a si próprio o papel de “guarda fronteira” da esquerda. Fala de uma “articulação entre o centro e as esquerdas” para falar do que há a discutir entre o PS e os outros partidos de esquerda. Para dizer que o PS não é de esquerda, é de centro. Não crendo que o Professor Louçã reivindique a origem divina do seu apanágio de crismar como “esquerda” ou “não esquerda” este ou aquele partido, não consigo entender de onde lhe vem a legitimidade para “expulsar” da esquerda um partido que, como é o caso do PS, foi o principal obreiro do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública para todos, da Segurança Social pública, de uma política de ciência progressista… e fico por aqui nos exemplos. Só há uma explicação para essa pretensão do Professor Louçã: sectarismo. E o sectarismo é a pior doença da esquerda – principalmente daqueles que nunca chegaram a entender que a esquerda só não é plural nas ditaduras (ou porque está no poder e suprime totalitariamente as outras esquerdas, ou porque está sob ditadura na oposição e acaba por não ser capaz de diversidade).

Terceiro, o Professor Louçã tem dificuldade em conciliar uns parágrafos com outros. Começa a dizer cobras e lagartos do meu alerta para a necessidade de uma “agenda para a década” da esquerda, e depois vai dizendo que não se pode pensar só no imediato (por exemplo, quando escreve que “reduzir as conversas entre parceiros a uma gestão do dia-a-dia cria instabilidade”). Portanto, se for eu a dizer, o Professor Louçã acha mal; se for o Professor Louçã a dizer, já acha sensato e relevante. Que há necessidade de fazer um debate mais profundo e atempado da política da maioria parlamentar? Claro que há. Como eu e muitos outros já tínhamos dito antes.

Quarto, o Professor Louçã tem dificuldade em reconhecer quando está num debate, preferindo fazer de conta que está a falar sozinho, talvez a dar lições aos demais. Daí que, gastando embora parte do seu texto a falar da União Europeia como questão que tem de ser trabalhada com outra profundidade pelas esquerdas na sua pluralidade, faz de conta que não sabe ou não percebe que eu tinha, precisamente na entrevista em referência, identificado essa como uma das questões centrais a precisar de outro tipo de conversa. Não precisamos de estar de acordo para identificar os pontos que precisam de urgente tratamento. Falar de um ponto que eu identifiquei como uma das encruzilhadas mais precisadas de trabalho à esquerda, e falar como se eu tivesse passado ao lado desse ponto de agenda – é pouco próprio de quem seja capaz de entender que está num debate.

Infelizmente, o Professor Louçã, que já uma ou outra vez decidiu despender tempo com o que eu escrevo ou digo, adopta nessas ocasiões o ponto de vista da superior pureza de quem tem a "verdadeira esquerda", o que, no fundo (e não querendo ser ofensivo para nenhum dos dois), não anda muito longe de uma auto-infligida displicência muito parecida com a forma como Francisco Assis costuma brindar-me na sua saga contra a orientação política da direcção do PS. Francisco Assis é motivado pela sua desconfiança de que eu sou demasiado à esquerda para ser do PS. Francisco Louçã, finalmente, não anda longe: seria mais cómodo para a sua estratégia que não houvesse vozes de esquerda no PS - seria mais fácil, nesse caso, tentar transformar o PS num pequeno partido incapaz de dar um impulso progressista ao país.

Felizmente, o Bloco de Esquerda, como colectivo e como força política, é melhor do que a auto-suficiência de quem quer que seja. É mesmo por essa razão que vale a pena, à esquerda, pensar para além do imediato, pensar para além do anual, pensar para além da legislatura. A esquerda tem de pensar numa agenda para a década.



11 de Fevereiro de 2017

05/02/17

"A esquerda tem de pensar uma agenda para a década."

12:53


[Para memória, reproduzo aqui a entrevista que João Pedro Henriques me fez para o Diário de Notícias, publicada a 4 de Fevereiro de 2017 (em linha aqui).]

Porfírio Silva, um dos principais entusiastas dentro da direção do PS dos entendimentos do partido com as formações à sua esquerda, dá o passo em frente e vai mais longe: propõe que PS, Bloco de Esquerda, PCP e PEV comecem a conversar entre si um programa de governação a longo prazo. Uma "agenda para a década", diz, numa referência ao título do documento do PS que enquadrou a preparação do último programa eleitoral do partido. O dirigente socialista, próximo de Costa e membro do núcleo mais restrito de decisão no PS, lança no entanto também avisos de curto prazo: as autárquicas não podem fazer perigar a estabilidade do governo.


A nova atitude política do PSD expôs alguns problemas internos na maioria de esquerda. O governo foi obrigado a substituir a redução da taxa social única pela redução do Pagamento Especial por Conta. O que revela isto sobre o estado da arte na maioria de esquerda?

Revela para já no PSD uma falta de maturidade democrática e uma falta de coerência assinaláveis e lamentáveis. No nosso lado, isso revela que a maioria parlamentar de esquerda, ao fim deste tempo, revelou-se mais poderosa e interessante para o país do que poderíamos imaginar ao princípio. Se nos focarmos apenas na ideia de devolução de rendimentos e direitos, estaremos num plano. Mas na realidade, passado este tempo, já estamos num plano diferente, que é começarmos a fazer coisas que não estavam previstas nos acordos e começamos a ter mais ambição.


Isso quer dizer que as "posições conjuntas" foram curtas para aquilo que era preciso fazer?

Não. Se olharmos para os acordos, indicam uma coisa muito importante e que nem sempre tem sido sublinhada: colocamos o PS no ponto de vista da legislatura e os acordos também. Na realidade, há vários aspetos do acordo que não se satisfazem num ano ou dois. Há aspetos que precisam de uma legislatura para ser concretizados: combate à precariedade, a reanimação da negociação coletiva, o reforço do Serviço Nacional de Saúde e de outras funções sociais do Estado, a evolução continuada do salário mínimo nacional, a universalização da educação pré-escolar. São coisas que não se fazem num ano ou dois. Há muita matéria dos acordos que tem de ser vista, como os próprios dizem, na perspetiva da legislatura.

Mas não estão determinadas em concreto as medidas a tomar.

Os acordos não se resumem a dar respostas fechadas e definitivas para problemas. Os acordos indicam variadas áreas em que nos comprometemos a dar respostas ao país em conjunto. É claro que os acordos não são o programa de governo. Há trabalho a fazer. O importante é: nós pensamos numa perspetiva de legislatura. E importa sublinhar que a estabilidade política é essencial ao progresso social. É muito importante sublinhar: a esquerda deve mostrar ao país que somos tão capazes de dar estabilidade governativa como os outros.

Isso é uma recomendação para o PS, para o Bloco de Esquerda ou para o PCP?

É para toda a gente. Até diria mais: para já estamos numa perspetiva de legislatura. Para mim é absolutamente claro que o PS continuará a concorrer com as suas próprias listas. Mas acho que nós começamos todos a pensar noutra direção...

Ou seja, seria mais responsabilizante que, uma próxima legislatura, todos estivessem no governo?

Hoje posso confessar que quando isto estava a ser discutido internamente no PS eu era um dos que defendiam que era mais interessante ter um governo com todos do que ter um governo só do PS e uma maioria parlamentar plural. Mas não me foco na questão da fórmula, até porque reconheço que houve aspetos em que foi positivo ser um governo só do PS.

Por não se ter bloqueado o diálogo europeu?

Sim, terá sido mais fácil entrar no cenário europeu com esta fórmula governativa do que se fosse um governo de coligação. Mas não me quero concentrar nas questões de fórmula. Alguns já têm dito que precisamos de rever os acordos, outros prefeririam um programa comum. Eu não entro pela questão da forma, entro pela da substância. Temos de aumentar a ambição. E isso para mim significa responder a esta pergunta: que legado queremos deixar ao país ao fim de duas legislaturas? Estou a pôr a questão em termos de ambição estratégica. Em vez de pensarmos em termos anuais - Orçamento do Estado -, temos de pensar ao nível de Programa Nacional de Reformas. E até diria, voltando aos nossos próprios termos: precisamos de pensar numa agenda para a década, a esquerda tem de pensar uma agenda para a década. Precisamos de pensar estrategicamente a mais longo prazo. Quando dizemos que temos de reduzir estruturalmente as desigualdades excessivas que temos no nosso país, alguém pensa que se pode dar uma solução sustentada e duradoura apenas numa legislatura? Provavelmente não.

Portanto, a esquerda - e todas as componentes que integram a atual solução de governo - devia agora encarar seriamente a hipótese de começar a conversar entre si numa perspetiva de longo prazo.

Sim, sem dar um calendário, sem dar uma fórmula específica, acho que é preciso começar a pensar com outra ambição. Mas isso tem exigências próprias. Vou dar um exemplo de um tema que não podemos ignorar, em que precisamos de ter outro tipo de conversa: a questão europeia. O PS tem uma aposta na Europa que não é partilhada da mesma maneira nem pelo BE nem pelo PCP, e é uma questão central da estratégia para o país.

Mas o PS não pode estar à espera que o PCP, o BE ou o PEV agora se tornem europeístas?

Nenhum dos partidos está à espera que cada um dos outros deixe de ser aquilo que é. Mas assim como hoje nós podemos reconhecer que alguns alertas que o PCP deu no passado acerca dos riscos da integração europeia eram pertinentes, continuo a achar que Portugal deve estar na União Europeia [UE] e na zona euro. Isso não invalida que reconheçamos que o PCP deu alertas relevantes e pertinentes. Da mesma maneira, talvez outros partidos sejam capazes de reconhecer que o PS não é o Syriza - e ainda bem. O PS não é o primeiro Syriza, que pensou que ganhava afrontando os outros parceiros, nem é o segundo Syriza, que teve de aceitar coisas que nunca pensou aceitar. Talvez os outros parceiros estejam disponíveis para compreender que a via que o PS escolheu, sendo difícil, apesar de tudo tem produzido melhores resultados do que uma via de afrontamento com a UE.

Como é que se resolve a questão concreta da rejeição categórica do BE e do PCP ao Tratado Orçamental?

Em primeiro lugar, já não há Albânias, já não é possível estar isolado do resto do mundo. Penso que este governo tem demonstrado que, com todas as limitações que nós reconhecemos, tem permitido mudar algumas coisas. Hoje, Portugal não está isolado, tem parceiros, há vários países que olham para a experiência portuguesa como uma experiência interessante. Há um caminho, que é difícil, mas é um caminho que promete e concretiza mais do que um caminho de afrontamento. A esquerda não pode voltar ao nacionalismo. Não pode trocar o internacionalismo pelo patriotismo.

Sente que um dos fatores que vieram expor os recentes problemas dentro da maioria de esquerda foi a proximidade das eleições autárquicas?

Todos os partidos concorrem para ganhar. O PS quer continuar a ser o maior partido autárquico, ter a presidência da Anafre e da ANMP. Também entendemos que os outros partidos têm os seus objetivos, e isso é perfeitamente legítimo e normal. Mas seria absolutamente incompreensível, e até muito pouco de esquerda, que por causa da tentativa de obter alguns ganhos autárquicos se entrasse em táticas que pusessem em causa a solidez e a eficácia da maioria de esquerda no Parlamento. A única linha que acho que deve ser marcada é: não façamos das eleições autárquicas uma oportunidade para prejudicar a eficácia, a solidez e a estabilidade da maioria parlamentar e da governação.

E o facto de o Bloco e o PCP serem muito competitivos também complica as coisas?

Todas as relações com vários polos são complexas e não há só a dinâmica do PS com cada um dos outros partidos com quem subscreveu acordos, há as dinâmicas que já existiam de alguma diferenciação política e estratégica dos outros partidos. Mas isso faz parte da nossa democracia, são partidos diferentes, convergem numas coisas, divergem noutras, temos de viver com isso e não é o PS que vai dar lições sobre como o BE e o PCP se devem relacionar.

Neste momento exclui a possibilidade de uma interrupção da legislatura através da aprovação de uma moção de censura que passe com votos à esquerda do PS?

Acredito que a esquerda nunca dará a mão à direita para derrubar um dos parceiros da esquerda.

Derrubou em 2011.

Acho que já todos fizemos contas ao que aconteceu em 2011. E toda a gente percebeu que o que resultou disso não foi bom para o país.

Portanto, não se perspetiva que o PS venha a ter de apresentar uma moção de confiança ao seu governo.

Acho que só se apresentam moções de confiança quando se desconfia da confiança, e neste momento não há razões para duvidar da confiança.

Mas é uma opção que o PS não pode em absoluto excluir.

Todos os mecanismos previstos no nosso ordenamento constitucional e jurídico são recursos dos agentes políticos, mas o meu julgamento político é este: não vejo necessidade de moções de confiança porque não duvido da confiança.


28/01/17

A esquerda precisa de ser capaz de divergir e de convergir

17:25


O ano que corre terá vários episódios importantes para a política europeia – e, por essa via, importantes para as nossas vidas de pessoas comuns. Alguns desses episódios encostam a esquerda à parede: será a esquerda capaz de pensar e fazer alguma coisa útil para não se perder nos labirintos abertos pelos populismos e pela mistura entre direita e extrema-direita? Será a esquerda capaz de entender que esses labirintos se complicam ainda mais pelas nossas próprias incapacidades longamente enraizadas?

Em muitos países, a esquerda sofre de uma prolongada doença de sectarismo. Isto é: continua a haver sectores da esquerda convencidos da sua própria pureza química e da consequente “obrigação militante” de “dobrarem a espinha” de outros sectores da esquerda (quanto mais não seja recusando a outros a própria pertença à esquerda). Em Portugal, com uma maioria parlamentar de esquerda plural, com um importante histórico de divergências e uma evidente necessidade de trabalhar para consolidar convergências, este pano de fundo merece ser pensado.

Alguns episódios históricos deveriam alertar-nos para a gravidade da questão. Vejamos dois, um de lá de fora, outro português.
Nas eleições presidenciais francesas de 2002, Lionel Jospin, candidato dos socialistas (que tinha sido primeiro-ministro do governo da Esquerda Plural de 1997 até esse ano), não passa à segunda volta, tendo tido menos votos que o candidato da Frente Nacional (extrema-direita), Jean-Marie Le Pen. Le Pen tem 16,86% dos votos, Jospin fica-se pelos 16,18%.
Nessa eleição havia vários candidatos presidenciais de esquerda. Alguns desses candidatos vinham da Esquerda Plural, designação para a rede de acordos que tinham sido celebrados para as eleições legislativas de Abril de 1997, que ligou o PSF a entendimentos eleitorais separados com os Verdes, os Radicais de Esquerda e com o movimento de Jean-Pierra Chevènement (dissidente do PSF). Esses acordos, complementados com uma declaração conjunta com o PCF, configuraram a Esquerda Plural, que chegou ao governo com ministros e secretários de Estado dos vários parceiros (apesar de Chevènement ter saído do governo em 2000).
Ora, os candidatos que tinham sido propostos por forças integrantes da Esquerda Plural, que faziam a maioria governamental, recolheram (além dos socialistas) cerca de 16%. Outros candidatos da chamada esquerda radical, ou extrema-esquerda, recolheram mais cerca de 10%. Isto quer dizer que a segunda volta foi disputada entre dois candidatos da direita, um da direita tradicional (Jacques Chirac) e outro da extrema-direita (Le Pen), apesar do conjunto dos candidatos da esquerda na primeira volta terem recolhido mais de 42% dos votos. Chirac venceu na segunda volta com mais de 82% dos votos.

Outro episódio é o das presidenciais portuguesas de 1986. Nessas eleições, Freitas do Amaral venceu a primeira volta com mais de 46% dos votos, Mário Soares recolheu pouco mais de 25%, Salgado Zenha pouco mais de 20% e Lurdes Pintasilgo pouco mais de 7%. O candidato da direita perdeu a eleição com 48,82% na segunda volta, contra Mário Soares com 51,18% dos votos, que foi apoiado por toda a esquerda – com destaque para o PCP, que engoliu um enorme sapo para evitar um mal maior.
Isto é: no caso das presidenciais portuguesas de 1986, a esquerda arranjou uma maneira de divergir quando tinha de divergir e de convergir quando tinha de convergir, enquanto, no caso das presidenciais francesas de 2002, a esquerda divergiu até ao desastre.
O problema volta a apresentar-se agudo nas próximas presidenciais francesas, onde pode acontecer que a esquerda do PSF consiga vencer as primárias do seu próprio campo apenas para chegar à situação de vários candidatos de várias esquerdas a comporem um cenário onde, todos contra todos, arriscam deixar à direita os trunfos decisivos e a vitória final.

Para quem, como eu, se coloca no campo do socialismo democrático, da social-democracia e do trabalhismo, uma família europeia bastante heterogénea, esta é uma questão complexa. Muitos entendem que o essencial da questão está no desafio histórico da esquerda radical ao socialismo democrático: como em Espanha o Podemos tenta desalojar o PSOE da liderança da esquerda, também noutros países outras forças radicais tentam “pasokizar” os partidos socialistas e transformar os extremos à esquerda e à direita nos novos pólos agregadores de alternativas de poder.

Vejo a questão de outra maneira. Para ultrapassar a crise de legitimidade das nossas democracias, ameaçadas por uma grande desafeição de muitos cidadãos face a um poder político que parece distante e desinteressado das suas vidas concretas, é preciso reforçar a base social da democracia representativa. Quer dizer, é preciso que venha mais gente ao envolvimento directo em soluções de governo que respondam às necessidades dessas camadas, designadamente às necessidades de pessoas que sentem que para elas só ficam as sobras do crescimento e do progresso. Ou nem isso. Do lado da esquerda, e pensando como socialista, julgo que podemos fazer isso estabelecendo uma relação o mais produtiva possível com outras forças de esquerda, das quais divergimos muitas vezes – e, certamente, muitas vezes por boas razões que nos assistem. É tão simples – e tão complexo – como isto: os socialistas, social-democratas e trabalhistas têm de ser capazes de desenvolver um novo diálogo com as chamadas esquerdas radicais, para alargar a base social de apoio a soluções democráticas e progressistas para a governação. E para fazer com que essas soluções possam tornar-se maioritárias e possam ser implementadas. Temos todos de aprender como fazer isso. Certamente que o “realismo da governação” dos socialistas (o hábito de pensar em termos de viabilidade da concretização) pode ser útil. Certamente, também, o “radicalismo” de certa esquerda pode ser útil para não perdermos o contacto com muitas pessoas que, hoje, desesperam da representação e estão prestes a cair nos braços do primeiro populista que lhes apareça.

O gigantismo dos desafios aconselha a grandeza da resposta. O que se tem feito em Portugal pode ter algum interesse para esta estratégia. Mas, claro, também por cá temos ainda muito para aprender. A esquerda precisa de ser capaz de divergir e de convergir – e de escolher os modos e os momentos certos para cada um desses movimentos dinâmicos.


28 de Janeiro de 2017