dignificar o emprego científico.

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O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior esteve ontem na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência, onde tive oportunidade de lhe colocar duas questões sobre emprego científico. O Ministro Manuel Heitor deu respostas muito importantes, que, por isso, aqui resumo.

Primeira pergunta: em que ponto estão as negociações do novo regime jurídico de estímulo à contratação de investigadores doutorados?

Resumo da resposta. As negociações estão a correr bem, espero que o regime para estes novos contratos esteja a funcionar a partir de Setembro. Mas é preciso ver numa perspectiva mais ampla o que estamos a fazer para dignificar o emprego científico. E, aqui, há quatro aspectos a salientar.
Primeiro, a Lei do Orçamento de Estado para 2016 abriu o acesso às carreiras. Após 5 anos de total castração da possibilidade de acesso às carreiras, hoje temos, em todas as universidades públicas portuguesas e politécnicos, concursos abertos para acesso à carreira.
Segundo, o novo regime de contratação de doutorados (em negociação, como dito antes) complementa essas carreiras, porque estes novos contratos vão depois ligar às carreiras.
Terceiro, o programa de estímulo financeiro à ciência terá o enquadramento, isto é, as exigências regulamentares necessárias à promoção da dignidade do emprego científico, quer nos apoios a conceder via FCT para esses novos contratos, quer no que chamamos “arranjos colaborativos” entre o sector público e o sector privado, financiados ao abrigo dos fundos estruturais. O financiamento será feito em condições de promover a dignidade do emprego científico.
Quarto: futuramente, a avaliação das unidades de investigação (em discussão pública a partir de Setembro) irá consagrar as condições de dignificação da actividade científica. Isto quer dizer que, nos critérios de avaliação das unidades de investigação, constarão as condições em que os investigadores são contratados, de forma a que se consiga evitar, e se possível anular totalmente, o abuso de bolsas para jovens que não são realmente bolseiros. Temos de acabar com o abuso da figura de bolseiro e a avaliação das unidades de investigação contribuirá para isso: espero que deixe de ser possível uma unidade de investigação ser avaliada com “excelente” ou com “muito bom” se tiver qualquer abuso da figura do bolseiro.

Segunda pergunta: como é que o MCTES está a dar seguimento à recomendação da Assembleia da República sobre a prorrogação do período transitório para a conclusão do doutoramento?

Resumo da resposta. O regime transitório vai ser prorrogado – mas vamos fazer muito mais do que isso.
Depois de uma série de consultas com as instituições, o MCTES vai abrir, até ao final da semana, as negociações com os sindicatos sobre este assunto, com total sentido da urgência na resolução deste assunto. Estamos a fazê-lo em total articulação com o Ministério das Finanças.
Estamos a considerar, não apenas as pessoas abrangidas pelo regime transitório, mas muitos outros casos que temos de resolver, por serem elementos essenciais do corpo docente, que contribuem para capacitar as instituições politécnicas. Valeu a pena o esforço iniciado em 2006 pelo PROTEC, que capacitou cerca de 2000 docentes do ensino politécnico. Tirando daí as necessárias lições, agora temos de integrar quer os que estavam no regime transitório quer os que não estavam.
Demorou a estudar o problema, porque tivemos de identificar uma vasta panóplia de situações diferenciadas, que queremos resolver. Agora estamos em condições de partir para a negociação da solução, desde logo prorrogando por um ano o prazo para a conclusão do doutoramento. Mas queremos fazer muito mais do que isso. Queremos integrar todos aqueles que já acabaram o doutoramento, mesmo que não estivessem abrangidos pelo regime transitório. Estamos a trabalhar nisso, sem esquecer o quadro de constrangimentos financeiros, trabalhando com os sindicatos e com as instituições do ensino superior, para encontrar soluções que se possam concretizar financeiramente num prazo razoável.
Estamos a ir muito além do que nos foi recomendado pela Assembleia da República.




OS SOCIALISTAS E OS TOFFLERS.

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(O texto que se segue foi publicado na edição de 14/04/1985 do Diário de Notícias - há mais de 30 anos, portanto - e era subscrito na qualidade de membro da Comissão Nacional do Partido Socialista. Referia-se à recepção entusiasta de Alvin Toffler, que acabara de publicar A Terceira Vaga. Nesse entusiasmo estavam envolvidos nomes importantes do PS de então. Republico por ocasião do passamento de Toffler. Nem tudo perdeu actualidade desde então...)


OS SOCIALISTAS E OS TOFFLERS



Nos últimos tempos, e particularmente em dias recentes, temos sido invadidos por uma verdadeira encenação toffleriana, que incluiu a vinda a Portugal do "profeta" americano. Talvez não fosse mau reflectir um pouco sobre o fenómeno - e o fenómeno não se circunscreve, nem é, se calhar, essencialmente apenas o discurso do próprio Toffler, mas inclui também a sua divulgação e massificação entre nós.



Futuro: um discurso neutro?

A primeira coisa que se nos oferece à reflexão é a aparente neutralidade do discurso toffleriano. Fala-se de futuro, de modernização, de transformações - como se todos estivéssemos sintonizados quanto ao conteúdo e significado desses termos: mais, como se esses termos não tivessem conteúdo e significado potencialmente conflitual.
Ora, tal não e, simplesmente, possível. O futuro - a nossa visão do futuro - depende antes de mais do nosso presente. Se o nosso presente é feito dos nossos circunstancialismos, as nossas aspirações e as nossas opções - e elas são diversas e contrastantes -, como podem os "nossos futuros" ser os mesmos?

A pretendida neutralidade do discurso toffleriano insere-se na estratégia da "morte das ideologias", que é para nós uma estratégia reaccionária. Se ideologias no seu sentido lato - percepção e acareamento com o mundo - as há diversas, ideologias em sentido restrito - racionalização da forma de agir em resposta ao mundo - tem de as haver também. E existem. Portanto, neutralidade e morte das ideologias como estratégia reaccionária, já que consiste em mascarar a existência e o valor dos diversos quadros éticos e optativos, com o objectivo de impor a ideologia dominante.
E a táctica actual da ideologia dominante consiste em fazer crer que o futuro é só um e não depende de opções que nós possamos tomar - para que as nossas opções não interfiram nesse tipo de futuro que nos querem "oferecer".


Um novo optimismo histórico

O discurso toffleriano acerca do futuro corporiza um novo optimismo histórico, pós-marxista mas fatalista como o marxismo.
O marxismo, e particularmente as suas versões panfletárias e militantes, ofereceram a várias gerações a garantia da necessidade histórica do socialismo - o socialismo, pela própria lógica do destino, teria de vir. A história encarada de forma fatalista, o fatalismo visto de forma positiva.
Toffler & Cª também inventaram um futuro para nós, mas não se limitaram a dizer-nos que ele há-de vir; intimam-nos a trabalhar para isso. E não são brandos: toffleriano futuro ou nada, sem terceira opção. Ou futuro informático, em berços de novas tecnologias, ou passadistas e retrógrados, fósseis e acabados.
Como se em cabos de fibras ópticas viesse uma nova sociedade; em botões de computador, novas mentalidades; em écrans repletos de informação, a igualdade de oportunidades e o direito à diferença.
O que os toflerianos nos não dizem - e escondem - é quem nos vende a tecnologia e quanto ganha com ela. Como não nos dizem que os microcomputadores instalados em nossa casa nunca terão acesso ao computador do Pentágono; nem nos explicam o porquê da espionagem tecnológica entre Leste e Oeste; nem prevêem daqui a quantos anos um camponês moçambicano terá o seu microcomputador... e em que é que isso contribui para evitar que morra de fome.
É que os novos produtores de felicidade - tal como todos os anteriores - vão vendê-la caro.



Socialismo, para quê?

Sem querer, de forma simplista, bater na tecla da intervenção social, da participação e do militantismo, não podemos deixar de sublinhar que toda esta encenação toffleriana assenta e potencia toda uma apologia do individualismo. Nesse aspecto, retoma os erros dos que anteriormente estabeleceram um esquema de raciocínio assente no binómio colectivismo/individualismo, como termos que se excluíssem. E nisso o individualismo não difere radicalmente dos excessos inerentes ao colectivismo. Ambos não percebem quanto a individualidade pode ser solidariedade num contexto de direito à diferença.
O tofflerianismo é a trombeta do fim dos projectos de valorização do homem, que só podem ser o próprio homem lançado na vida e no mundo e nos outros. Combate a tradição, não por ser anticonservador, como pretende fazer crer, mas porque a tradição tem memória das batalhas, das experiências e das pequenas vitórias que já se viveram e que, por amor, se continuam fazendo. Prepara um homem ainda mais anónimo, angustiado, nu e só na praça pública, discursando alto acerca das vantagens do indivíduo contra o social.
Tudo isto com a marca do socialismo partidário português, para consumo dos seus dirigentes e como cábula de um projecto presidencial, enquanto valores da tradição socialista - de que não vemos razão para nos envergonharmos - são claramente negados por estes apóstolos do futuro sem rosto e quimicamente puro. Para eles o socialismo (como, aliás, qual quer outra coisa que devesse ser alternativa) ou não existe ou é inútil, se não adverso.

Caberia então aos socialistas - se o soubessem - não se envergonharem de o ser. Competir-lhes-á (ainda) aceitar os desafios da modernidade: sem dogmatismo e sem sectarismo, mas também sem medos e sem acatamentos passivos, acríticos e consumistas de encomendas alheias.

Porfírio Silva, 14/04/1985, Diário de Notícias 



SOCIALISTAS APELAM À PARTICIPAÇÃO NA MARCHA EM DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA.

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SOCIALISTAS APELAM À PARTICIPAÇÃO NA MARCHA EM DEFESA DA ESCOLA PÚBLICA

A exigência constitucional de criação de uma “rede de estabelecimentos públicos de ensino que cubra as necessidades de toda a população” tornou a ESCOLA PÚBLICA, no Portugal democrático, numa ferramenta essencial da efetividade da democracia política e de prossecução dos imperativos de realização da democracia económica, social e cultural e de aprofundamento da democracia participativa.
Uma escola de qualidade, inclusiva, onde todos possam aprender mais e aprender melhor, só é possível com o reforço da ESCOLA PÚBLICA. Por isso se impõe defendê-la, porque está em curso um ataque pelas forças da direita, que falam em sacrificar a escola pública e em deixar de investir na escola pública onde exista escola privada.
A defesa da escola pública convive bem com a liberdade de criar/manter escolas particulares e cooperativas. As famílias têm a liberdade de escolher essas escolas em vez das escolas públicas. O Estado não interfere no projeto educativo dessas escolas, nem na sua gestão. Os graus conferidos por essas escolas são reconhecidos. Defender a escola pública não é, pois, pôr em causa a liberdade de ensinar e de aprender.
Pelo contrário: defender a escola pública é defender a liberdade de ensinar e de aprender para todos, seja qual for a sua condição, o seu território, as suas necessidades, as suas aspirações. Porque a escola pública não evita territórios. A escola pública não escolhe alunos. A escola pública é para todos e é a única que garante igualdade de oportunidades. A escola pública é de todas as cores da democracia.
Por tudo isto não podemos aceitar que a escola pública se torne supletiva da escola privada. E por isso, é tempo de voltarmos a mobilizar-nos para defender e valorizar a escola pública. Os Deputados do Partido Socialista na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência apelam à participação na Marcha em Defesa da Escola Pública que terá lugar em Lisboa, no próximo dia 18 de junho, com concentração na Praça Marquês de Pombal a partir das 14h30m.

Alexandre Quintanilha
Ana Catarina Mendonça Mendes
André Pinotes Batista
António Eusébio
Diogo Leão
Elza Pais
Gabriela Canavilhas
João Torres
Maria Augusta Santos
Maria da Luz Rosinha
Odete João
Palmira Maciel
Pedro Coimbra
Pedro Delgado Alves
Porfírio Silva
Sandra Pontedeira
Sónia Fertuzinhos
Susana Amador

Brasil, Europa.

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Esta semana tive dois encontros relevantes na qualidade de Secretário Nacional do PS responsável pelas Relações Internacionais.

No dia 18 recebi no Largo do Rato uma delegação de cinco sendadoras e senadores e deputados de vários partidos de esquerda do Brasil. Nessa ocasião fui informado da situação política que lá se vive e expressei preocupação, porque o processo actual configura uma entorse constitucional, na medida em que há uma mudança de natureza do regime: a fonte de poder executivo, tal como previsto pela Constituição, é o presidente eleito directamente pelo povo, mas passou agora para as mãos de um parlamento que não recebeu mandato para o efeito. Nesta situação, o Brasil tem agora um governo com um programa que não recebeu nenhum mandato popular: nem para o governo, nem para o seu programa. Garanti que nenhum valor é mais alto para nós do que a democracia e que, por isso e pelas conquistas sociais que estão em risco, continuaremos atentos ao que se passa no Brasil.

No dia 19 recebi o Primeiro Vice-Presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, tendo-lhe feito saber que damos muito valor e apoiamos o seu trabalho em matéria de Estado de Direito e de Direitos Fundamentais na União Europeia, até porque a Europa só pode reganhar significado político e relevância se for efectivamente uma comunidade de valores. O encontro foi também oportunidade para reafirmarmos posições acerca da correcta relação entre Portugal e a Comissão Europeia, designadamente no que toca a uma cooperação virada para o futuro - e não para um "acertar de contas" baseado nos resultados dos últimos anos.

uma luta do ex-ministro David Justino contra o actual ministro Tiago Brandão Rodrigues, por via de David Justino presidente do CNE !?

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O PSD está numa deriva radical, a qual se nota especificamente também na Educação. Mais precisamente, agora, com a questão dos contratos de associação.

Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, tem sido um dos arautos desse radicalismo, designadamente ao ter assumido o papel de tentar criar uma guerra entre a Igreja e o Estado nesta matéria, quando é claro que não há nenhum critério confessional na política do governo (nenhuma escola receberá ou deixará de receber mais turmas pelo critério de ser ou não ser confessional).

Nisso, Montenegro fica bem na fotografia ao lado de Passos Coelho, que entrou na guerra dos privados com um ataque pessoal ao Ministro da Educação, com um ataque aos sindicatos que deveria envergonhar a sigla "social-democrata" do seu partido, e com uma tentativa de inverter a Constituição (onde houver uma escola privada, não se investe na escola pública).

Uma das manifestações mais preocupantes dessa deriva radical é a tentativa de instrumentalizar órgãos independentes. Como a proposta do PSD, chumbada hoje na AR, de pedir um estudo ao Conselho Nacional de Educação sobre custos do ensino privado e do ensino público.

O PS explicou porque chumbou a proposta (segue-se recorte da declaração de voto entregue hoje):

Este Projeto de Deliberação traduz a intervenção do Deputado Pedro Passos Coelho, no debate quinzenal de 13 de Maio passado, quando propôs que o governo adiasse quaisquer decisões sobre contratos de associação para o próximo ano, realizando entretanto um estudo sobre os custos das opções em consideração. Trata-se, portanto, de uma proposta para não decidir.
Ora, em primeiro lugar, esse estudo pode ser realizado pelos serviços competentes do próprio Ministério da Educação, sem necessidade de o solicitar ao Conselho Nacional de Educação (CNE). Aliás, o CNE teria sempre de recorrer aos serviços do Ministério da Educação para obter os dados, pelo que a proposta do PSD serve o propósito de sugerir, sem o fundamentar, que os dados fornecidos pelo Ministério da Educação não são fiáveis.
Em segundo lugar, e mais grave, esta proposta do PSD, se entendida como motivo de adiamento das decisões a tomar sobre contratos de associação, é, pelas suas consequências, claramente irresponsável – qualquer que seja a opinião sobre o que fazer com os contratos de associação. Assim:
(a) Os que entendem que devem ser abertas todas as novas turmas desejadas pelas escolas com contrato de associação, deixando o estudo da rede para o próximo ano, pretendem, na prática, comprometer um novo ciclo de financiamento por mais três anos, sem um estudo que demonstre essa necessidade. A menos que considerem a hipótese de abrir as turmas e depois não lhes dar continuidade, o que seria inaceitável.
(b) Se, pelo contrário, entendermos que os contratos em vigor, celebrados por três anos, só contemplam a continuidade das turmas abertas no corrente ano letivo, a proposta de não decidir este ano (que é a proposta do PSD) implica que não sejam assinados novos contratos, portanto que não sejam abertas novas turmas este ano, provocando uma situação de rutura da oferta nos territórios onde efetivamente haja carência da rede pública.
Em qualquer dos casos, a consequência da proposta do PSD é inaceitável. E por isso o Grupo Parlamentar do PS vota contra este Projeto de Deliberação.

Note-se bem o que está em causa: instrumentalizar um órgão independente, o CNE. O que o PSD está a tentar é o seguinte: criar uma luta do ex-ministro David Justino contra o actual ministro Tiago Brandão Rodrigues, por via de David Justino actual presidente do Conselho Nacional de Educação. Trata-se, simplesmente, de uma completa falta de respeito pelas instituições. Não se esperaria isto do PSD? Talvez não. Mas é esse o PSD que temos hoje.

MFL, a social-democracia e as escolas públicas ou privadas.

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A Dr.ª Manuela Ferreira Leite, na edição de 30 de Julho de 2015 do programa Política Mesmo (TVI), analisou o programa eleitoral da PàF. A linha mais clara do seu discurso era a seguinte: não posso apoiar, porque eu sou social-democrata e este programa não é social-democrata. Esse posicionamento baseava-se numa análise do conceito de liberdade de escolha, muito presente no dito programa da coligação PSD/CDS.

Transcrevo alguns pontos do que disse então Manuela Ferreira Leite. O programa completo pode ser revisto aqui.


Manuela Ferreira Leite, excerto 1:
«Há uma ideia que atravessa todo o texto e que é a liberdade de escolha. (…) Estou a partir da hipótese tem a ver com sector público ou sector privado. (…) Naqueles pontos fundamentais em que se pode escolher se determinado serviço é fornecido pelo sector público ou pelo sector privado, eu tenho a opção de tanto ir a um como ir a outro. Esse é o ponto (…) com o qual eu não consigo estar solidária, pela simples razão de que eu sou social-democrata. (…) Nessa situação é fundamental a ideia com que a social-democracia encara o Estado social. Este Estado social baseia-se, assenta em três pilares: na educação, na saúde e na segurança social. E aí considera-se que uma parte importante destes pilares são fornecidos pelo Estado. O Estado fornece estes serviços aos cidadãos. Evidentemente que qualquer deles pode ser desempenhado também pelo sector privado. E por isso no texto do programa se vê muita vez a liberdade de opção e o reforço do papel regulador e fiscalizador do Estado. E evidentemente que o Estado regulador surge exactamente naquelas funções em que devendo ser feitas pelo Estado são também pelo privado. Então, o Estado vai regular para que esse serviço seja fornecido de acordo com determinado tipo de condições.»

Manuela Ferreira Leite, excerto 2:
«Se eu tiver que por os meus filhos na escola acho óptimo poder escolher entre ir para o sector público ou para o sector privado. (…) Tem graça nos três primeiros anos, ou nos quatro primeiros anos, ao fim de dez anos acabámos, ficámos com um sector em que a qualidade do ensino no privado é para alguns e o público vai ficar apenas com a parte de menor qualidade e portanto para aqueles que menos podem. E portanto toda a construção de Estado social , que eu julgo que é aquilo que é a matriz da social-democracia, é que estes três pilares , o Estado social assenta nestes três pilares , estes três pilares são fornecidos em parte importante pelo Estado e só o poderão ser subsidiariamente, com certeza, pelo sector privado. Se assim não for, se as escolas públicas, os hospitais públicos, as partes dos apoios sociais ficarem só apenas para as IPSS, no caso da assistência social, ou a escola pública apenas para alguns, para aqueles mais pobres que não podem de forma nenhuma pagar essas diferenças, e os hospitais também apenas para esses, quer dizer que entrámos num regime assistencialista. Quer dizer, o Estado entra, e participa, e paga, aos pobrezinhos. Isso é absolutamente contrário à matriz social-democrata.»

Manuela Ferreira Leite, excerto 3:
«Quando se fala na liberdade de opção da educação e da saúde, nos três primeiros anos deve ter alguma graça, ao fim de dez anos realmente houve uma privatização do sector da saúde e do sector da educação. (…) Aceita-se de certa forma que possa haver uma complementaridade, por exemplo na educação, ou na saúde, dos privados em relação ao público, porque não existem unidades suficientes para assistir à procura de toda a gente. Mas não é o caso da educação. No caso da educação existe uma rede pública que por motivo de reduzir tantos alunos, aquilo que está a acontecer é fecharem as escolas, não é a abrirem escolas. Porque está a diminuir a procura. No caso em que existe uma rede pública, por que é que nós vamos ter que apoiar uma rede privada, se nós temos uma pública? E se vamos ter que a pagar? E se não podemos deixar de a pagar? Não consigo entender. »




Ensino Particular e Cooperativo.

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Reproduzo a minha intervenção, esta manhã no plenário da Assembleia da República, no debate de atualidade sobre “Ensino Particular e Cooperativo”, requerido pelo PSD. Vídeo mais abaixo.


* * *



Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Deputados,
Senhores Membros do Governo,

Neste debate de hoje sobre Ensino Particular e Cooperativo, convém começar por esclarecer o que está em causa.
Não estamos a discutir a liberdade de ensinar e de aprender. Ninguém põe em causa a liberdade de criar escolas privadas e cooperativas; as famílias têm a liberdade de escolher essas escolas em vez das escolas públicas; o Estado não interfere no projeto educativo dessas escolas, nem na sua gestão; os graus conferidos por essas escolas são reconhecidos. Portanto, não está em causa a liberdade de ensinar e de aprender, mas sim o financiamento.
É legítimo discutir financiamento, é legítimo que os proprietários de escolas queiram discutir o modelo de negócio e tentem obter mais financiamento do Estado. Mas não é legítimo confundir as questões.

O que acontece é que o governo está a fazer uma gestão cuidada e rigorosa dos dinheiros públicos, como é seu dever. Mas, claro, o Partido Socialista não concordaria que, em nome da gestão dos dinheiros públicos, se desrespeitassem os compromissos do Estado. Para isso já bastou a legislatura anterior e a prática do governo anterior.
Os contratos de associação firmados pelo anterior governo serão respeitados. Será financiado o número de turmas previsto nos contratos, nos montantes fixados pelos contratos. Todos os alunos poderão prosseguir e completar o ciclo de estudos que estão a frequentar, na turma em que se encontram atualmente.
E, ainda, serão financiadas novas turmas de início de ciclo de estudos, consoante as necessidades identificadas pela avaliação criteriosa da rede, que está a decorrer.

Alguns apostam na cartada ideológica para embelezar reivindicações que dizem apenas respeito a financiamento. Pois, sejamos claros: aqui só há uma ideologia, que consiste em respeitar as leis do país e, desde logo, a Constituição e a Lei de Bases do Sistema Educativo.
Não há nenhuma novidade legislativa no que o governo está a fazer: a novidade é que este governo cumpre a lei e executa os contratos de acordo com as regras dos concursos que deram origem a esses contratos.
E, por isso, não se admite que a escola pública seja tratada como supletiva da escola privada, não admitimos a prática inaceitável de fechar turmas no público para artificialmente criar espaço para turmas no privado. Isso não podemos aceitar, porque temos a obrigação democrática de promover a igualdade de oportunidades também no acesso à educação.
Estamos certos de que, nas decisões que o Ministério da Educação venha a tomar em termos de gestão da rede, nenhuma entidade será prejudicada ou beneficiada por razões ideológicas. As decisões sobre as turmas a abrir terão em conta as necessidades locais e a gestão criteriosa dos recursos públicos.

Senhoras e senhores deputados,
É claro que, quando se trata de gerir a rede de oferta educativa, estamos a lidar com problemas difíceis. Alguns alertam que poderá haver desemprego de. Na realidade, já há desemprego de professores, designadamente na escola pública, desde logo porque há muito menos alunos, é a realidade demográfica. Só nos últimos 7 anos letivos, perdemos mais de 137 mil alunos e perdemos mais de 30 mil professores.
No entanto, esta realidade não afetou igualmente a escola pública e a escola privada. O que se fez na legislatura anterior foi sistematicamente cortar mais no financiamento do ensino público do que cortaram no ensino privado. Sim, Nuno Crato cortou em tudo, até no ensino privado, mas cortou mais no ensino público e até isso mostrou agir por impulso ideológico.
Portanto, sim, há um problema de desemprego de professores, e temos de estar atentos a esse problema, mas não têm autoridade nenhuma para falar disso aqueles que no governo anterior disseram aos professores que a saída deles era a imigração.

E também temos de recusar a irresponsabilidade dos que usam o alarmismo como arma política. É o caso de quem fala de despedimento eminente de quatro mil professores nas escolas com contratos de associação. É que, estando em vigor contratos plurianuais de três anos, é completamente injustificado que estejam a ameaçar de despedimento imediato todos os professores dessas escolas.

Senhoras e senhores deputados,
A liberdade de cada família optar pelo sistema público ou pelo sistema privado mantém-se inalterada. Os contratos de associação não são ferramentas de promoção da liberdade de escolha das famílias, porque financiam diretamente os proprietários das escolas e não as famílias.
E não, Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados, Senhores membros do Governo, fechar uma escola pública para abrir uma escola privada, isso não promove a liberdade de escolha, isso não promove a igualdade de oportunidades, nem respeita a lei.

Disse.



“Há aspectos onde o poder político tem de ficar à porta da escola”

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{O Diário de Aveiro publica hoje uma entrevista comigo, sobre Educação. Como, por esse país fora, muitos dos meus amigos não podem comprar o Diário de Aveiro, deixo aqui um registo.}

Entrevista. O deputado do PS Porfírio Silva fala sobre o encontro “Que Escola para o século XXI?” que decorre amanhã, às 9:30 horas, no Conservatório de Música, em Aveiro.
O PS organiza amanhã, em Aveiro (Conservatório de Música, 9:30 horas) o encontro “Que escola para o século XXI?”, com a participação do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, e de outros oradores, entre governantes, deputados e especialistas. O Diário de Aveiro falou com Porfírio Silva, o deputado eleito por Aveiro que é o coordenador socialista na Comissão de Educação e Ciência.

Diário de Aveiro – O que irá mudar de mais significativo na educação com este governo?
Porfírio Silva – A principal aposta é a promoção do sucesso escolar. A política educativa do anterior governo esqueceu os combates mais difíceis, como o insucesso escolar e as desigualdades. Agora é preciso focar no essencial: que todos os alunos aprendam mais e melhor, para que a escola seja fator de mobilidade social ascendente e de desenvolvimento do país. Para isso foi criado recentemente o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, que vai juntar vários sectores para orientar o esforço para combater o insucesso escolar, dar mais conteúdo concreto à igualdade de oportunidades e aumentar a eficiência e qualidade da escola pública. Certamente que esta aposta terá de passar pela universalização da educação pré-escolar a partir dos 3 anos (sabemos como isso faz a diferença no sucesso dos alunos), pelo enriquecimento do currículo, pela valorização de todas as componentes de formação (técnica, tecnológica, artística, física), pela valorização pedagógica do ensino profissional, pela inovação pedagógica, pelo reforço da ação social, pela formação contínua dos profissionais, por um modelo de avaliação virado para apoiar a aprendizagem e não para a seriação dos alunos.

O novo modelo de avaliação no ensino básico é acusado de facilitismo. Não era importante manter os exames?
O PS não tem nenhuma posição radical quanto aos exames: o novo modelo mantém o exame do 9º ano. Mas temos de ser sensatos e distinguir as coisas: Portugal era praticamente o único país do nosso espaço civilizacional com exames no 4º ano. Radicais ideológicos foram os que introduziram esses corpos estranhos no sistema, não por razões pedagógicas, mas por bandeira política. Se, em vez de pensarmos em rankings, que são um instrumento tão mal usado, pensarmos em avaliação que seja útil para ajudar os alunos a aprender melhor, ajudar os professores e as famílias a orientar melhor os alunos, então estamos muito melhor servidos com as provas de aferição. As provas de aferição vão dar indicações acerca do que deve ser corrigido e do que deve prosseguir por estar a correr bem, e isto a nível individual e a meio dos ciclos de estudos, a tempo de corrigir, em vez de deixar para o exame final, quando já é tarde. Portanto, respondo: nada disto é facilitismo.

A redução do número de alunos por turma é apenas uma bandeira, ou vai mesmo ser concretizada?
Em muitos casos seria importante poder trabalhar com grupos mais pequenos, embora haja situações muito diferenciadas. Vamos avançar com isso gradualmente. Mas não se trata simplesmente de encolher as turmas, trata-se de permitir que a nível de escola se façam escolhas finas que respondam à diversidade de situações existentes. Por exemplo, na aprendizagem de uma língua estrangeira, pode fazer falta ter um grupo mais pequeno na componente de prática oral, mas isso não ser importante nas partes mais teóricas. Não devemos, portanto, focar-nos num limiar fixo e universal de alunos por turmas, mas criar condições para, progressivamente, pensando a partir da sala de aula, que é onde as coisas acontecem, se poder responder de forma favorável ao trabalho de alunos e professores.

A ideia de deixar mais decisões às escolas também inclui a chamada descentralização das competências?
Há aspetos onde o poder, qualquer poder político, tem de ficar à porta da escola. Não queremos os municípios a interferir com a pedagogia. Muitas autarquias têm desempenhado um papel muito positivo no apoio às escolas, em termos de meios materiais, humanos, apoio social, racionalização de recursos locais – e isso deve ser incentivado. Só que há domínios onde a autonomia da escola não pode ser beliscada: os aspetos curriculares e pedagógicos, a contratação de professores, bem como a gestão da rede, são vetores da escola que não podem ser tomados pelos poderes exteriores à escola. Delimitados os campos, é positivo o envolvimento das autoridades locais com as escolas.

Quais as prioridades para o Ensino Superior e a Ciência?
O anterior governo tentou fazer-nos crer que empobrecendo Portugal e os portugueses podíamos resolver os nossos problemas de desenvolvimento. Esse caminho estava errado e temos agora de encetar uma estratégia baseada no conhecimento, na qualificação das pessoas, das instituições e dos territórios, na ciência. Para isso, a primeira prioridade é reforçar o investimento em ciência e tecnologia, rejuvenescendo o corpo docente no ensino superior público e reforçando o emprego científico. Este ano devolveu-se às instituições a capacidade para contratar. É preciso avançar decididamente no combate à precariedade dos investigadores: não podemos preencher necessidades permanentes de investigadores com bolsas que se eternizam, os trabalhadores científicos têm de ter contratos dignos. Reforçou-se já este ano a ação social escolar. Depois, é preciso promover o enraizamento do saber nas necessidades dos territórios, designadamente apoiando os Politécnicos para fazerem mais formação avançada relevante para as suas regiões, para fazerem mais investigação ligada às atividades económicas e culturais regionais, para trazerem mais estudantes ao ensino superior. Em terceiro lugar, há que promover articulações mais fortes com áreas de desenvolvimento que têm tudo a ganhar em serem mais intensivas em conhecimento. Depois, há que alargar a base de recrutamento da ciência, por exemplo retomando a promoção do ensino experimental das ciências no ensino secundário. E ainda quero sublinhar a importância da já lançada Política Nacional de Ciência Aberta, que visa generalizar o acesso aberto às publicações e aos dados científicos resultantes de investigação financiada por dinheiros públicos. Trata-se de retomar a estratégia de longo prazo de Mariano Gago, que foi interrompida de forma sectária na última legislatura.

Mas não houve agora um corte de financiamento no Ministério da Ciência e Ensino Superior?
Durante um dia ou dois pensou-se que podia haver uma cativação de verbas que afetarias as instituições de ensino superior, mas tudo foi esclarecido rapidamente. O país não ficou rico de repente, mas há de facto uma aposta em investir nesta área.





Uma geringonça para a Europa.

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Após as legislativas de Outubro, partidos de esquerda que costumam divergir em matérias importantes encontraram uma plataforma capaz de uma viragem na governação. Esse entendimento respondeu à necessidade de interromper uma governação PSD/CDS agressivamente apostada numa estratégia de empobrecimento, destruição de direitos sociais e passagem a um país de precários apetecíveis para as formas mais selvagens de capital. Os acordos à esquerda foram possíveis porque eram necessários para travar uma direita política, ideológica, económica e social apostada em dominar absolutamente o país, uma direita para quem valia tudo para desestruturar até à violência a nossa vida colectiva. Os acordos entre o PS, o PCP, o BE e o PEV deram essa resposta – sem deixarem de ser uma geringonça, porque todos os dias têm de procurar respostas não antecipadas para os desafios da realidade. E porque essa procura se faz na heterogeneidade assumida entre parceiros.

É de uma geringonça que precisa a União Europeia para interromper a perigosa deriva em que se encontra há anos: a igualdade entre Estados-Membros e o método comunitário deram lugar a uma hierarquia de devedores e credores; os responsáveis pela promoção do interesse comum cederam o passo aos interesses nacionais mais egoístas; a prosperidade partilhada tornou-se uma miragem; a UE já nem para problemas humanitários prementes consegue construir respostas decentes e eficientes.

Porque é que a resposta à crise da UE tem de vir de uma geringonça europeia? Porque nenhum dos blocos políticos ou geográficos tradicionais tem as forças necessárias para encetar só por si um caminho de renovação. Para dar apenas o exemplo trágico da família socialista e social-democrata: quando temos “camaradas” em lugares de destaque a servir de porta-vozes dos piores aspectos da ortodoxia económica e financeira alemã, quando temos “camaradas” a liderar governos que fazem campanha contra a entrada de muçulmanos na Europa – percebemos que esta família não chega para mudar o rumo europeu.

Temos, pois, de agir para montar uma geringonça europeia. Sinais positivos recentes desse caminho: o primeiro-ministro grego a ser cada vez mais integrado na dinâmica negocial dos socialistas europeus; a iniciativa, partilhada por Mário Centeno, em que oito ministros das finanças, de proveniência geográfica e política diferenciada, identificam a necessidade de mudar o método de cálculo dos défices estruturais, para tornar mais robusta a gestão sustentável das finanças públicas. Temos de alargar a rede, para construir uma geringonça europeia alargada: por exemplo, voltando a dar mais atenção à iniciativa “Triplo A social”, da Comissária Marianne Thyssen, que poderia permitir a construção de uma dimensão de coesão social na União Económica e Monetária. Só uma geringonça para a Europa permitirá construir as alianças necessárias para quebrar a hegemonia de ferro do pensamento único, com os custos pesados que tem feito pagar a tantos.

(Texto publicado originalmente na Geringonça.)

Parabéns, Cristina Reis!

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Boas notícias: «O Prémio da Crítica 2015 distinguiu a cenógrafa Cristina Reis, da Cornucópia, “pela arquitectura de cena que criou para o espectáculo Hamlet", anunciou este sábado a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.»

A mesma notícia explica: «O comunicado do júri sublinha “a admirável arquitectura de cena” que Cristina Reis concebeu para Hamlet, uma co-produção do Teatro da Cornucópia e da Companhia de Teatro de Almada. “Ainda que integrando-se no projecto criativo do encenador Luís Miguel Cintra, destacou-se não apenas pela expressiva configuração em palco do universo concentracionário, que a peça sugere, mas também pela plasticidade e valor icónico dos elementos cénicos que convocou”, argumenta o júri. “Jogando com soluções inesperadas e contrastivas”, acrescenta o comunicado, “a cenógrafa criou uma atmosfera de clausura na evocação do poder régio, sobrepondo as ameias de um castelo ao recorte de uma coroa real e trabalhando a geometria no desenho de vários adereços de cena”. Mas o júri também salienta que “esse rigor formal” coexiste com “elementos inesperados de parodização”, enunciando ao mesmo tempo “o brilho e os riscos do exercício do poder”.»

Concordo plenamente. Quando aqui dei conta da forma como vi o Hamlet encenado por por Cintra, escrevi:

«Como não sou crítico, embora goste de teatro e goste de escrever sobre o trabalho da Cornucópia, há muitos aspectos de cada espectáculo que não costumo comentar, como o trabalho dos actores ou o cenário. Mais uma vez desta vez, não vou dizer nada do atrevimento tão falado de escolher um actor de 22 anos para fazer a personagem Hamlet, em vez de um consagrado (com um resultado que me agradou francamente). Mas, uma vez sem exemplo, vou falar do cenário.

A Cristina Reis costuma encontrar fantásticas atmosferas poéticas para os espectáculos da sua companhia, com uma sensibilidade que ultrapassa a minha compreensão e só se entende por ela ser tão da casa que todos os seres inanimados que lá dormem lhe pagam tributo com a cumplicidade que só os objectos na sua quietude sabem como se faz. Senti, desta vez, que o cenário fez mais, foi mais activo; criou, não apenas uma paisagem e um solo onde pousassem as acções e se escorassem as intenções das personagens, mas, muito mais do que isso, uma máquina do mundo que labutou, secreta mas intensamente, para mover a verdade ali em causa e fazer acontecer. É um castelo, ou mais precisamente um esquema de um castelo, sem mudanças de cenário em quatro horas de acontecimentos, mas um castelo tão complexo como o mundo: com vários níveis, interior e exterior, salas e salões e janelas e escadas e passadiços e pátio e cemitério e longe e perto, com vários modos de acesso e circulação capazes de criar movimentos e formas de estar diferentes no que estaticamente podia ser igual, recriando numa casca de noz uma série rica de diferenciações espaciais e significativas essenciais a Elsinore. O castelo do mundo, da luta pessoal pela descoberta do próprio caminho, da luta contra os outros ou com os outros, está aqui todo dado naquela caravela voadora que é o cenário da Cristina Reis, que, se nos costuma dar poesia material, desta vez nos deu filosofia prática. Creio, aliás, que a diferença de intensidade que senti entre a primeira e a segunda partes do espectáculo (e senti-o das duas vezes que o vi) se deve à exploração mais intensa que a segunda parte faz das possibilidades dinâmicas do castelo.»


Só para dizer que a Cristina Reis merece tudo e mais.